Cilas Gontijo, Jornal Opção
O cineasta goiano Robney Bruno lança, no dia 16 de fevereiro, o filme Terra Encantada, que aborda a história de Goiás a partir de uma narrativa ficcional. A exibição acontecerá no Kinoplex do Goiânia Shopping, às 10h da manhã, seguida de um debate com historiadores e representantes indígenas.
A entrada é gratuita, mas é necessário fazer a reserva com antecedência neste link. O filme é dirigido pelo cineasta Robney Bruno Almeida e detalha a colonização mameluca de Goiás, além do consequente conflito que quase dizimou os Povos Originários.
Segundo Robney, a ideia do filme surgiu há anos, mas só começou a ser desenvolvida na pandemia. “Eu já tinha uma ideia anterior. Vou muito a Goiás, e certa vez estávamos conversando após uma sessão de cinema. Começamos a conversar sobre Anhanguera e sua importância para a formação da nossa sociedade, até que alguém comentou: ‘Se não fosse ele, nenhum de nós estaria aqui’”, conta Robney Bruno ao Jornal Opção.
O impacto dessa reflexão o motivou a pesquisar mais sobre o tema. “Isso foi em 2014. Quando veio a pandemia, resolvi desenvolver a ideia, fazer pesquisas. Conversei com historiadores, como o professor Nilson e Aliezer, e fui escrevendo o roteiro“, explica.
Robney ressalta que o projeto foi aprovado pela Lei Goyazes, mas a captação de recursos foi um desafio. “A Goyazes é muito difícil de captar. Na mesma época, a Equatorial lançou um programa de patrocínio para projetos aprovados na lei. Inscrevi o filme e a Equatorial gostou. Então, conseguimos esse patrocínio, além do apoio da Secretaria de Estado da Cultura“.
As filmagens aconteceram ao longo de 2023, mas em 2024 o projeto precisou ser pausado. “Tive que focar em outros filmes da produtora. Só consegui retomar no fim do ano. Agora, estamos prontos para o lançamento“.
Uma história ficcional e pessoal
O filme propõe um debate sobre história e identidade por meio de um enredo fictício. “E se, um dia, a estátua de Anhanguera desaparecesse? O que aconteceria?“, provoca Robney. Paralelamente, ele investiga sua própria ancestralidade.
“Minha mãe é descendente de escravos e indígenas, enquanto meu pai tem origem italiana e portuguesa. No filme, faço um paralelo entre essa história familiar e a trajetória de Anhanguera e dos indígenas. Minha mãe, que é morena quase negra, também participa do filme”, revela.
Além da exibição, haverá um podcast à tarde com um representante indígena, um historiador e outros convidados. “Serão seis pessoas na mesa do debate, incluindo o professor Rodrigo“, antecipa Robney.
O diretor já planeja sequências para o filme: “Queremos fazer Terra Encantada 2 e Terra Encantada 3, mas isso depende de novas oportunidades“.
Nilson Jaime comenta sobre “Terra em Chamas”, filme que mistura realidade e ficção para refletir a colonização em Goiás e o genocídio dos Povos Originários
Para Nilson Jaime, editor-geral da Coleção GOIÁS +300, o filme Terra em Chamas mistura realidade e ficção de forma provocativa, apresentando a colonização mameluca de Goiás e o consequente conflito que quase dizimou os Povos Originários. O diretor Robney Bruno, segundo Jaime, traz à cena uma narrativa de forte conteúdo histórico e crítico.
“Terra em Chamas é uma provocação para o debate, como a arte deve ser. Há denúncia do genocídio na parte factível do vídeo. Contudo, a parte ficcional serve de alerta contra o negacionismo histórico, que é contraditório ao método científico”, afirma Nilson Jaime.
Em relação à sua participação no documentário, ele explica que ela se deve ao seu papel como editor-geral da Coleção Goiás +300, que tem como objetivo promover uma reflexão sobre a historiografia de Goiás por meio de uma abordagem decolonial. A iniciativa, que inclui a edição de 18 livros, é fruto do trabalho do Instituto Cultural Bernardo Élis Para os Povos do Cerrado (Icebe) e do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG).
Jaime destaca a importância de ressignificar a história, reconhecendo os Povos Originários e as populações afrodiaspóricas, que, segundo ele, foram historicamente ignoradas pela historiografia oficial. “A reflexão e a ressignificação significam dar voz a esses povos para relatarem a história que as 650 gerações de indígenas vivenciaram em Goiás nos últimos 13 mil anos. E os negros nos últimos três séculos. Não só a luta e resistência ao colonizador invasor, mas o legado étnico, antropológico e cultural que os indígenas e negros do Brasil deixaram para a geração atual.”
Na visão de Nilson Jaime, a valorização do legado indígena e afrodiaspórico é mais significativa do que a luta pela retirada de monumentos, como o da Praça do Bandeirante, abordada na parte ficcional do filme. “Acredito que evidenciar o legado indígena e afrodiaspórico é mais importante que lutar para a retirada do monumento da Praça do Bandeirante, que é abordada na parte ficcional do documentário”, argumenta.
Jaime também cita uma ação afirmativa recente: no dia 31 de janeiro, o IHGG empossou entre seus sócios duas professoras indígenas, Eunice Tapuia e Vanessa Karajá, além de dois pesquisadores das africanidades e Povos Afrodiaspóricos. “Isso é mais significativo para a historiografia indígena do que a retirada do bandeirante da praça, que só impactaria o local de deposição dos dejetos columbófilos.”
Por fim, ele defende a importância das ações afirmativas e políticas de reparação como estratégias mais eficazes. “Penso que a defesa de ações afirmativas, com políticas de reparação, é mais eficazes que a inócua luta por retirar monumentos erigidos há quase um século.”