Brasília, 10/03/2026

72% da população mundial vive sob regimes autoritários, diz ONG

Um relatório divulgado nesta quarta-feira (4) pela Human Rights Watch (HRW) aponta que 72% da população mundial vive sob regimes autoritários. Os dados indicam que o mundo atravessa uma “recessão democrática”, em patamar semelhante ao de quarenta anos atrás.

“A democracia agora voltou a níveis de 1985 segundo algumas métricas, com 72% da população mundial vivendo sob regimes autocráticos. Rússia e China são hoje menos livres do que há 20 anos. E o mesmo ocorre com os Estados Unidos”, destaca a ONG.

O relatório reúne o estudo “25 Anos de Autocratização – A Democracia Triunfa?”, produzido pela Universidade de Gotemburgo, na Suécia, em 2025, que analisa quase 200 países desde 1974.

Segundo o estudo, os países são classificados nas seguintes categorias: autocracia fechada (35), autocracia eleitoral (51), autocracia em zona cinzenta (4), democracia em zona cinzenta (13), democracia eleitoral (46) e democracia liberal (29).

Autocracia Fechada: ausência de eleições multipartidárias para o Poder Executivo; inexistência de componentes democráticos fundamentais, como liberdade de expre0ssão, liberdade de associação e eleições livres e justas.

Exemplos: Cuba e China.

Autocracia Eleitoral: existem eleições multipartidárias para o Poder Executivo; contudo, há níveis insuficientes de requisitos fundamentais, como liberdade de expressão e de associação, além da garantia de eleições livres e justas.

Exemplos: Rússia, Venezuela e Ucrânia.

Zona Cinzenta: os países pertencem a esta categoria quando os intervalos de confiança se sobrepõem, tornando a classificação mais incerta.

Exemplos: México, Nigéria e Indonésia.

Democracia Eleitoral: eleições multipartidárias para o Poder Executivo são livres e justas; existem níveis satisfatórios de sufrágio, liberdade de expressão e liberdade de associação. Há restrições judiciais e legislativas ao Poder Executivo, juntamente com a proteção das liberdades civis e da igualdade perante a lei.

Exemplos: Argentina e Brasil.

Democracia Liberal: os requisitos da democracia eleitoral são atendidos; existem restrições judiciais e legislativas ao Poder Executivo, juntamente com a proteção das liberdades civis e da igualdade perante a lei.

Exemplos:

EUA diante do ‘avanço autoritário’

Em apenas 12 meses, o segundo mandato de Trump, realizou ‘um amplo ataque aos pilares centrais da democracia dos EUA e da ordem internacional’, destaca a ONG.

“Trump também fortaleceu autocratas e enfraqueceu aliados democráticos. Enquanto repreendia alguns líderes eleitos da Europa Ocidental, ele e altos funcionários expressaram admiração pela extrema direita nativista europeia”, ressaltam.

O relatório apresenta algumas das ações de Trump que prejudicam os Direitos Humanos:

– ataque militar à Venezuela e captura de Nicolás Maduro e sua esposa, com intenção de controlar o país e seus recursos.
– envio de venezuelanos, incluindo requerentes de asilo, para uma prisão violenta em El Salvador, onde foram torturados e sofreram abusos sexuais.
– plano para transformar Gaza em uma “Riviera do Oriente Médio” sem palestinos, o que equivaleria a “limpeza étnica”
– minou a confiança na integridade das eleições nos EUA.
– adotou políticas e retórica alinhadas à ideologia nacionalista branca (no contexto de migração e direitos civis).
– relatório apontou que dezenas morreram sob custódia do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE).

Enfrentamento ao autoritarismo

Diante do avanço de governos autoritários e do enfraquecimento da ordem multilateral, a Human Rights Watch defende a formação de uma nova aliança global de democracias comprometidas com uma ordem baseada em regras e na proteção dos direitos humanos.

A proposta é reunir países com peso econômico e geopolítico, como Austrália, Brasil, Canadá, Japão, África do Sul, Coreia do Sul, Reino Unido e a União Europeia, para que, juntos, possam atuar como uma força política e econômica capaz de contrabalançar a influência dos Estados Unidos e da China.

“Precisamos ter uma nova coligação de países que possa defender os direitos humanos no mundo”, afirma o diretor-executivo da HRW, Philippe Bolopion.

Segundo Bolopion, essa coalizão poderia oferecer acordos comerciais e pactos de segurança condicionados ao respeito à governança democrática, às normas de direitos humanos e à proteção de direitos trabalhistas, como forma de enfrentar políticas que enfraquecem a ordem internacional e favorecem o avanço do autoritarismo. (IG)

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