Brasília, 10/03/2026

Com aumento da violência policial, Derrite deixa governo Tarcísio rumo à campanha para o Senado

O deputado federal Guilherme Derrite (PP) deixará o comando da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) para voltar à Câmara dos Deputados e se dedicar à campanha ao Senado do ano que vem, a partir de segunda-feira (1º). A última participação de Derrite na pasta será na cerimônia de aniversário do 55º aniversário das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota).

Em 2026, Derrite deve utilizar os dados de diminuição de roubos no estado para promover a sua candidatura. No total, foram 12.766 queixas em 2025. Em seu primeiro ano à frente da pasta, em 2023, foram 228 mil registros. No ano passado, 193,7 mil.

Os números, porém, contrastam com os casos de violência e letalidade policiais. Sob o comando do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Guilherme Derrite, a Polícia Militar de São Paulo somou 737 assassinatos em 2024, segundo dados do Grupo de Atuação Especial da Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial do Ministério Público (Gaesp-MPSP). O número é 60,2% maior do que o registrado em 2023, o primeiro ano do mandato de Tarcísio, e 86% a mais do que o contabilizado em 2022, último ano de governo de João Doria e Rodrigo Garcia, ambos do PSDB, quando 396 pessoas foram mortas por policiais.

O deputado estadual Donato, liderança do PT na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), classifica a saída de Derrite como uma tentativa de sair “de forma honrosa” da Segurança paulista ao voltar para a Câmara para tratar da tramitação de projetos importantes para o país, como é o caso do PL Antifacção.

“Mas é uma tentativa de saída honrosa para uma gestão desastrosa, que aumentou a letalidade policial e, pior que tudo, não diminuiu a criminalidade em São Paulo. A sensação de insegurança nunca foi tão grande em todo o estado de São Paulo”, analisou o líder do PT. Donato afirma ainda que o deputado federal deixa a pasta sem ter “realizado a promessa do governador Tarcísio de transformar São Paulo num estado mais seguro e coroa o fracasso da sua política de segurança pública”.

A análise do Instituto Sou da Paz, que atua no tema da segurança pública, é também a de que a gestão Derrite deixou marcas negativas na pasta. “Ele assumiu mudando uma política exitosa de correta gestão do uso da força que havia sido implementada até o final de 2022, com a profissionalização da PM, comissões de mitigação de risco para discutir casos de eventos letais, armamento menos letal e as câmeras corporais”, diz Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto.

A especialista afirma que, entre 2020 e 2022, houve reduções expressivas da letalidade e da vitimização policial, mas que foram revertidas quando Derrite chega à SSP. “É uma gestão marcada por um aumento do uso da força policial, da letalidade policial, com um discurso que legitima isso. Em nenhum momento há uma repreensão ao mau uso da força, sempre dizendo que o policial está certo, antes mesmo de qualquer prova em contrário”, analisa.

Um dos discursos que simboliza o posicionamento de Derrite foi feito em dezembro do ano passado ao defender dois policiais militares da Rota denunciados por forjar um confronto e matar um homem desarmado no litoral. “Eu confio nos meus policiais e vou confiar até o julgamento. Mesmo que eles sejam pronunciados e tenham que responder no Tribunal do Júri, enquanto houver recurso e não houver comprovação que houve falha deles, eu confio na minha tropa, confio nos policiais”, disse Derrite na ocasião.

Para Carolina Ricardo, esse tipo de narrativa “tem efeito na ponta da linha, como na Operação Escudo, que foi uma operação deflagrada em resposta à morte do soldado Patrick, na Baixada Santista, com alto uso de força, deslocamento de um efetivo grande e, no mesmo período, o próprio gabinete da Secretaria de Segurança Pública foi para Santos”, lembra.

Marcada por denúncias de violações a direitos, a operação ocorreu entre 28 de julho e 5 de setembro de 2023 como resposta ao assassinato do soldado da Rota Patrick Bastos Reis na noite de 27 de julho de 2023 no Guarujá. Nesse período, foram mortas 28 pessoas.

Depois, a atuação voltou com o nome de Operação Verão, entre 18 de dezembro do ano passado e 1º de abril. Nesta segunda fase, as ações foram intensificadas após a morte do sargento Samuel Wesley Cosmo, membro da Rota, em 3 de fevereiro. Entre esta data e o fim da operação, a PM matou 56 pessoas.

No total, foram 84 vítimas das operações Escudo e Verão. Nesse contexto, a operação foi considerada a mais sangrenta da polícia paulista desde o massacre do Carandiru, quando 111 homens foram mortos durante a invasão da polícia na Casa de Detenção, em 2 de outubro de 1992.

O secretário de Segurança Pública e ex-policial da Rota, Guilherme Derrite (de camisa), no Guarujá, ocupado militarmente pela Operação Escudo (2023)
O secretário de Segurança Pública e ex-policial da Rota, Guilherme Derrite (de camisa), no Guarujá, quando o município foi ocupado militarmente pela Operação Escudo, em 2023 | Crédito: SSP-SP

Homicídios não elucidados

Outro tópico é a baixa nos casos de homicídios elucidados. Um estudo do Instituto Sou da Paz mostrou que apenas 31% dos crimes ocorridos em 2023 foram esclarecidos até 2024. “Também não vejo, embora tenha havido concurso para a Polícia Civil e um investimento maior na investigação criminal, melhora na elucidação dos crimes. Então, há pouco investimento nessa questão de investigar o crime, que, na minha leitura, é muito importante”, diz Carolina Ricardo.

Além disso, os crimes contra a mulher, como feminicídios e estupros, inclusive de crianças e adolescentes, aumentaram, de acordo com dados do Sou da Paz. No primeiro semestre de 2025, foram notificados 7.255 casos de estupro, o que representa um aumento de 2,2% em relação ao mesmo período de 2024 (7.102) e de 43% na comparação com 2020. A média atual chega a cerca de 40 ocorrências por dia.

A maior parte das denúncias envolve estupro de vulnerável, que inclui vítimas menores de 14 anos ou incapazes de consentir. Foram 5.550 casos no semestre, o equivalente a 76,5% do total. O indicador também piorou: avançou 1% frente a 2024 e acumulou alta de 46,8% em relação a 2020.

“Ainda que haja ações, como as salas lilás nas delegacias para a oitiva das mulheres, enfrentar o feminicídio e o estupro de crianças e adolescentes demanda ações que vão além da polícia. É preciso atuação do sistema de saúde para identificar casos, das escolas, criação de rede de apoio, encorajamento para denúncias”, afirma Ricardo.

“Não acho que isso tenha sido feito, porque é um secretário que foca muito na atuação policial ostensiva, em aumentar o policiamento na rua, o que é importante, mas não é suficiente. Então, ele também não conseguiu lidar de forma adequada com a violência contra a mulher e contra crianças e adolescentes”, acrescenta.

Na esteira da piora dos dados, segundo o anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) do ano passado, houve aumento nos estados de São Paulo (80%) e Rio de Janeiro (116,7%) no número de suicídios de policiais das corporações Civil e Militar, de 2022 para 2023.

Licença para relatar o PL Antifacção

No início de novembro, Derrite havia se licenciado da SSP para relatar o Projeto de Lei 5582/2025, conhecido como PL Antifacção. Com as eleições gerais no horizonte, a tramitação da proposta se tornou o palanque do policial militar para projetar seu nome para uma possível candidatura ao Senado. No total, serão eleitos dois novos representantes para o Senador por estado em 2026.

No entanto, as mudanças constantes no texto do PL com reclamações do governo e dos próprios aliados mostrou a fragilidade da articulação, além de “pegar mal” para aliados como a bancada da bala que queriam protagonismo no tema.

Entre idas e vindas, o relatório de Derrite chegou a cinco versões. Um dos recuos que ganhou mais notoriedade foi sobre o papel da Polícia Federal no combate ao crime organizado. O parecer previa a atuação conjunta ou coordenada da PF nos estados somente mediante autorização ou provocação dos governadores.

A corporação reagiu e afirmou publicamente que a medida compromete o interesse público. Em resposta, Derrite incluiu no texto a possibilidade de atuação da Polícia Federal por iniciativa própria e “em caráter cooperativo” com as polícias estaduais, “sempre que os fatos investigados envolverem matérias de sua competência constitucional ou legal”. Após os embates, o texto foi aprovado e agora segue para análise do Senado. (Brasil de Fato)

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