Brasil de Fato – Igor Carvalho E Nara Lacerda E Tabitha Ramalho
No início de 2025, os bolsonaristas pareciam dar as cartas na política brasileira. Com aliados e parte do Congresso na mão, acreditavam controlar em grande medida a agenda política do país. Parecia haver uma situação confortável para que a extrema direita continuasse à frente das decisões, enquanto o governo Federal seguia encurralado.
Porém, com o passar do ano, uma sucessão de acontecimentos foi dando o tom de que a extrema direita estava se enfraquecendo: alguns bolsonaristas fugiram do país, tentando escapar dos braços da Justiça; ações da Polícia Federal foram intensificadas com o aval do Supremo Tribunal Federal (STF) e escancaram o envolvimento de muitos atores desse grupo político com a tentativa de golpe executada no país no dia 8 de janeiro de 2023.
O processo culminou na condenação de pelo menos 24 réus, entre eles militares condenados pela primeira vez na história do Brasil por tentativa de golpe e o ex-presidente Jair Bolsonaro, que está encarcerado em Brasília.
Os principais acontecimentos da política este ano e como eles impactam a sobrevida do bolsonarismo estiveram na pauta do programa Três por Quatro, do Brasil de Fato, que teve a participação de Ana Cláudia Teixeira, professora colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Unicamp e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), e o historiador e professor titular no Instituto Federal de São Paulo (IFSP) Valério Arcary.
Teixeira avalia que a ida de Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal, aos Estados Unidos foi uma tentativa falha da articulação do relacionamento com a extrema direita internacional. “Vimos que não deu certo, especialmente porque o governo brasileiro também foi bastante reativo”.
“É um nacionalismo que eu diria ser o símbolo da articulação da extrema direita, e não exatamente o Brasil. Eu não acredito que isso faça com que o bolsonarismo perca votos, talvez até ganhe, pelo sentimento de pertencimento em seus aliados. É mais uma particularidade da simbologia”, explica.
Em agosto, os Estados Unidos anunciaram que a Lei Magnitsky seria aplicada ao ministro do STF Alexandre de Moraes. Uma semana depois, confirmou que outros oito ministros da Suprema Corte brasileira seriam alcançados pela sanção estadunidense aplicada extraterritorialmente a cidadãos brasileiros por ações tomadas no Brasil.
Também foi um momento em que Trump anunciou a intenção de impor tarifas de 50% sobre os produtos brasileiros sob a justificativa de retaliar uma suposta perseguição ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Teixeira destaca que a reação do governo brasileiro foi bem-sucedida e que “não se rendeu ao viralatismo”. Ela acrescenta que, ao mesmo tempo, as sanções afetaram as exportações brasileiras, mas também se tornaram um problema para a economia estadunidense. “Apesar de dependermos de itens do exterior, ao ter feito essa mobilização nos setores mais prejudicados internamente e externamente, o governo conseguiu reverter”, pontuou.
Das trapalhadas de Eduardo Bolsonaro nos EUA ao anúncio atropelado de Flávio Bolsonaro como herdeiro do legado político de seu pai, Valério Arcary destaca que a imprevisibilidade é uma característica da extrema direita de forma geral, não apenas no Brasil, e dita o modus operandi do conservadorismo atual.
“Nós fazemos cálculos de que a ação humana tende a ser racional, de que há um cálculo de risco, espaço para alguma reflexão. Mas a gente vem aprendendo que a extrema direita, e isso não é exclusividade do Brasil, tem uma dimensão empírica, de precipitação, uma dimensão emergencial, uma dimensão aventureira muito grande e isso é próprio do impulso destrutivo do neofascismo”, avaliou o historiador.
E compara o que acontece atualmente em outros países com governos à direita. “É uma das características históricas do fascismo que foram preservadas pelo fascismo do século 21 que une o Kast no Chile, passando pelo Milei na Argentina, o Trump nos EUA, chegando ao clã no Brasil. Eles vão testando as possibilidades. Eles testam a mobilização de rua, a avalanche de denúncias, de conspiração, de produção de fake news nas redes sociais, eles empurram aquilo que seria a direita conservadora para posições extremistas, enfrentam e desafiam a justiça”, explica.
A partir da prisão de Jair Bolsonaro em novembro, a Ana Cláudia Teixeira entende que o silêncio dos bolsonaristas é uma estratégia. “Porque eles têm uma base bastante mobilizada, calculando o que vai para as redes sociais, então não falar sobre o tema é uma estratégia”, avalia, reforçando que ainda é cedo para subestimar a capacidade de sobrevida do bolsonarismo e, sobretudo, acreditar que estão fora do jogo.
Em dezembro de 2025, Flávio Bolsonaro foi anunciado como pré-candidato à eleição presidencial de 2026. Para Teixeira, ainda é possível um reagrupamento em torno de Bolsonaro, mas sua aposta é de que tentarão disputar ao máximo o espaço no Congresso.

