Brasília, 08/03/2026

Em 2025, Trump monopolizou o noticiário, mas impopularidade nos EUA pode torná-lo ‘pato manco’ em 2026

Rodrigo Durão Coelho, Brasil de Fato

Durante todo o ano de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi muito bem sucedido em ocupar diariamente as manchetes do todo o mundo, seguindo fielmente o dogma comunicacional da extrema direita que entende não existir publicidade ruim.

Fosse por motivos sérios como declarar uma guerra tarifária mundialhumilhar colegas estadistas e roubar petróleo, ou aparente bravatas do tipo sugerir a anexação de outros países e até declarações localizadas 100% nos domínios do surreal, ele seguiu com sucesso a sua receita retórica em busca de visibilidade.

No entanto, o futuro de seu governo parece cada vez mais incerto, com chances bem reais de perda de governabilidade a partir de 2026, tornando-se “pato manco”, no jargão político. Ou seja, um presidente que teria pouco poder, pelas dificuldades de aprovar medidas legislativas, já que o republicano pode perder a maioria que tem no Congresso nas eleições legislativas de meio de mandato, previstas para novembro.

“Trump é um desastre total por ter prometido fundamentalmente duas coisas que não cumpriu: conter a inflação e a criminalidade causada por estrangeiros”, diz ao Brasil de Fato o cientista político James Green. “Em vez disso, adota medidas muito impopulares como deportar trabalhadores, beneficiar seus amigos ricos e decisões surpreendentes como esses ataques à Venezuela.”

Green lembra que a “a rejeição do seu mandato é maciça, mais do que 50% da população. Ou seja, ele pode perder o controle Câmara de Deputados e talvez do Senado, o que limitaria muito seus movimentos.”

Apesar disso, o professor da Brown University acredita que a Casa Branca buscará interferir em nossas eleições presidenciais de outubro, assim como outras da região, como a colombiana. Veja abaixo alguns dos principais acontecimentos protagonizados pelo mandatário no primeiro ano de seu segundo mandato.

Hostilidades internas e externas

Nos EUA, Trump adotou uma série de medidas em conformidade com seu lema America First (América em Primeiro Lugar) muitas por decreto, embora a Justiça tenha bloqueado algumas de suas decisões. Desprezando direitos fundamentais e outros centros de poder, Trump atacou seus adversários, enviou a Guarda Nacional a várias grandes cidades democratas, dedicou-se a intimidar os meios de comunicação e lutou contra os programas de diversidade e inclusão.

Muito do arrocho foi liderado pelo seu ex-melhor amigo Elon Musk. A pessoa mais rica do mundo foi empregada pela administração Trump para cortar fundo o aparato social do Estado e desmontar as agências estadunidenses que atuam no exterior. No auge da amizade, Trump e Musk apareceram em um vídeo criado por inteligência artificial mostrando sua visão para a Faixa de Gaza: um luxuoso balneário ocidentalizado e sem palestinos. Detalhe cruel: o vídeo foi publicado no auge do genocídio cometido por Israel, quando muitos palestinos morriam pela fome induzida por Israel.

O apoio a Israel se estendeu a ataques contra o Líbano, Síria, Iêmen e até o Irã, em um ataque inédito de 12 dias, alegadamente contra instalações nucleares do país. Alegadamente também, desta vez contra o narcotráfico, Trump enviou cerca de 10 mil soldados e armamentos pesados às próximidades da Venezuela no Mar do Caribe, na tentativa de derrubar o governo de Nicolás Maduro.

“Honestamente é muito difícil saber se vai haver guerra ou não no Caribe porque Trump é imprevisível, nunca se sabe se é maneira de mostrar sua masculinidade, ou se realmente são ameaças que ele vai cumprir. A grande maioria dos estadunidenses é contra, mas acredito que a meta do secretário de Estado, Marco Rubio, é pressionar indiretamente para a queda dos governos em Caracas e Havana“, diz James Green.

“Confiscar petróleo venezuelano que ia para Cuba (e os cubanos precisam desesperadamente deste petróleo) é parte dessa estratégia”, afirma o analista estadunidense, sobre as operações no Caribe que já mataram mais de 100 pessoas em pelo menos 20 ataques contra barcos pequenos.

Terraplanice

Mesmo matando tanta gente e tendo rebatizado o departamento (Ministério) da Defesa para da Guerra, Trump defendeu para si o Prêmio Nobel da Paz, alegando ter “encerrado sete guerras”, afirmação amplamente rebatida como falsa. Tal sandice, no entanto, esteve longe de ser a única ou a pior vinda da Casa Branca este ano.

Trump foi o campeão do ano do quadro Terra Plana de O Estrangeiro, o podcast de política internacional do Brasil de Fato, que semanalmente elege a mais bizarra notícia vinda dos rincões da extrema direita. O presidente estadunidense esteve o topo das votações por 18 semanas em 2025. Abaixo, algumas de suas pérolas vencedoras:

Em janeiro, após dizer que anexaria tanto o Canadá como a Groenlândia, bloqueou US$ 50 milhões de ajuda aos palestinos de Gaza, dizendo que o dinheiro seria usado para comprar camisinhas que seriam usadas pelo Hamas pra fazer bombas. Em fevereiro, sugeriu que estaria ocorrendo um roubo de reservas de ouro do Fort Knox e pediu que Musk pessoalmente fizesse uma auditoria.

Em abril, Trump deportou um salvadorenho que vivia legalmente nos EUA para depois admitir “erro administrativo”, mas ainda assim dizer que não pode trazê-lo de volta. Em maio aceitou como presente um Boeing de luxo de presenta da família real do Catar e, em julho, ofereceu US$ 25 milhões por informações do paradeiro de Maduro que levassem à sua captura, como se ninguém soubesse que o presidente da Venezuela mora na capital da Venezuela.

A política de causar reações indignadas incluiu seu secretário da Guerra defender o fim do voto feminino em agosto e postar em, em outubro, outro vídeo feito por Inteligência Artificial no qual despejava fezes sobre a cidade de Nova York. No mês anterior, ele havia reclamado bastante das escadas rolantes da ONU, durante a Assembleia Geral da entidade.

Brasil e tarifaço

Aquele 23 de setembro ficou marcado como um ponto de inflexão nas relações entre os EUA e Brasil, muito por causa do encontro com o presidente Lula, que, segundo ambos, revelou uma “química” entre os dois líderes. Vale lembrar que, à época, Trump era notório por constranger outros chefes de Estado (aliados ou não), como fez com o ucraniano Zelensky e o sul-africano Ramaphosa. Além disso, havia imposto as maiores tarifas do mundo às exportações brasileiras, de 50%, para chantagear o Judiciário brasileiro a não responsabilizar o ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de Golpe de Estado.

O anúncio das novas tarifas globais para as importações dos Estados Unidos foi o equivalente a um tsunami financeiro, ou uma declaração de guerra comercial ao mundo. Mesmo tendo renegociado a seu favor taxas mais favoráveis, como foi o caso do comércio com a União Europeia e o Japão, o motivo de Trump ter voltado atrás em varias delas, como muitas das brasileiras, foi que o tarifaço prejudicaria muito mais do que beneficiaria a economia estadunidense.

Ou seja, com Luiz Inácio pode até ter ocorrido química, mas a motivação maior foi interesse próprio. Tendência que deve se repetir ano que vem, quando de nossas eleições presidenciais.

“É bem possível que Trump já tenha mobilizado a CIA para articular com a extrema direita brasileira. Vamos ver se ele fará declarações públicas ou será na clandestinidade, mas fato é que ele não está interessado em ver Lula reeleito”, diz James Green.

“Tenho certeza de que, mesmo distraído por outros assuntos, Trump e Marco Rubio vão trabalhar para enfraquecer a candidatura de Lula“, afirma ele, citando a interferência do estadunidense em outros pleitos deste ano, como na Argentina e Honduras.

Pato manco?

Entre as distrações que podem ocupar a Casa Branca à época de nosso pleito, estão as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para o começo de novembro. A votação renovará os 435 assentos na Câmara dos Representantes e um terço dos 100 senadores e pode significar o fortalecimento ou a inviabilidade definitiva de seu governo durante os dois últimos anos de mandato.

Pesquisas mostram que hoje Trump tem recorde negativo de aprovação, com cerca de 56% dos estadunidenses desaprovando sua administração. Pior: nos chamados estados-pêndulo, onde não há maioria definidade de republicanos ou democratas, ele tem alto índice de rejeição.

“Trump tem apenas 33% de aprovação e nenhuma de suas políticas tem apoio da maioria da população. Caso essa dinâmica continue até novembro, ocorrerá uma grande derrota para Trump, que perderá o controle do Legislativo”, diz james Green.

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