O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) vai lançar 18 candidatos a deputados federais e estaduais pelo Partido dos Trabalhadores na eleição neste ano.
Ceres Hadich, da direção nacional do movimento, afirma que o movimento sempre marcou presença nos processos eleitorais, pautando o debate público, sobretudo em relação à agenda agrária, e apoiando candidatos aliados do movimento, no entanto, das últimas eleições gerais, em 2022, em diante, o movimento considerou importante disputar esses espaços com seus próprios militantes.
“Nós sempre entendemos que a batalha eleitoral é uma batalha importante, pois é uma manifestação da luta de classes e faz parte do processo democrático no nosso país. Nós sempre participamos disso tendo essa interpretação. Porém, nos últimos anos, nós estamos intensificando a nossa participação por entender que esse momento das eleições também é o momento de debatermos com a sociedade brasileira o nosso projeto de reforma agrária popular. É um momento onde podemos nos apresentar para a sociedade, levar as nossas propostas, fazer o debate, politizar e fortalecer um projeto de sociedade para a classe trabalhadora”, explica a dirigente.
“Mais do que disputar espaços e estar em locais de decisão, o que também é importante, é igualmente relevante, podermos aproveitar esse momento de diálogo com a sociedade e estar mais próximos do povo brasileiro”, disse Hadich ao Brasil de Fato, durante o 14° Encontro Nacional do MST, que ocorre em Salvador (BA).
Manter e ampliar
Em 2022, o MST conseguiu eleger sete parlamentares, e em 2024, nas municipais, 43 vereadores formados em suas fileiras. A ideia do movimento neste ano é reeleger os mandatos conquistados no último pleito nacional e redobrar os esforços para ampliar a representatividade sem terra nos parlamentos.
Entre os candidatos à reeleição está a deputada estadual do Rio de Janeiro, Marina do MST, e os deputados estaduais Adão Pretto Filho (Rio Grande do Sul) e Missias do MST (Ceará). O parlamentar cearense conta que apenas nessa legislatura em curso, seu mandato apresentou 93 projetos à Assembleia Legislativa do estado, dos quais 25 foram aprovados. E destaca a importância de ter um mandato vinculado com a luta dos trabalhadores rurais do Ceará.
“O nosso mandato trouxe para dentro da Assembleia aqueles que eram invisibilizados e tinham seus direitos negados, dando a oportunidade de serem ouvidos na TV Assembleia e na rádio Assembleia. É muito importante reafirmar que o nosso mandato se pauta na luta do povo. O nosso mandato não é voltado para dentro da estrutura física da Assembleia, mas é voltado para a realidade do povo, com o povo e nos territórios”, disse o deputado, que atualmente presidente a Comissão de Agropecuária do parlamento cearense.
Caras novas
E tem novidades na lista de candidatos do MST neste ano. No Pará, Pablo Neri, que integra o setor de formação do movimento no estado, quer conquistar uma vaga no Palácio da Cabanagem, sede do Legislativo paraense. Ele conta que a decisão de construir a candidatura foi tomada coletivamente pelo conjunto da militância do MST no estado.
“Não foi uma decisão individual. Fizemos uma reflexão sobre o momento em que vivemos e como estamos posicionados no estado do Pará. O movimento no Pará tirou um conjunto de definições que vão desde a luta pela terra e a massificação da agroecologia até a ocupação institucional como parte deste momento histórico em que precisamos nos reposicionar na política geral”, afirma o pré-candidato, que pretende romper com o hegemonismo da direita no parlamento estadual.
“O estado do Pará por muito tempo foi ocupado por uma elite fundiária e agrária truculenta que usa esses cargos para os seus fins coloniais. Nós acreditamos que a candidatura coloca o movimento dialogando com um conjunto maior da sociedade paraense sobre as propostas que temos para o conjunto da sociedade e nos coloca como sujeitos coletivos enfrentando essa realidade colonial”, aponta.
Em São Paulo, a ex-vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) e atual secretária adjunta de juventude da Secretaria Geral da Presidência da República, Jessy Dayane, também será candidata a deputada estadual. Para ela, a principal tarefa será fazer o debate com a população paulista sobre o direito à alimentação e a necessidade da reforma agrária para sua garantia.
“Uma das pautas mais importantes para nós em São Paulo é disputar o tema da reforma agrária, mas sobretudo da alimentação. Queremos fazer esse vínculo que já construímos através dos Armazéns do Campo, por exemplo. É um trabalho que já realizamos, mas queremos fortalecer o que já fazemos, como a solidariedade e o combate à fome através das ações de organização popular nos territórios. Queremos fazer isso com a possibilidade de ser potencializado e ampliado a partir de um mandato”, afirma Dayane, reconhecendo, por outro lado, que a luta contra a fome não depende de um mandato parlamentar, que pode contribuir para o fortalecimento dessa pauta.
Já no Maranhão, Vânia do MST é a aposta para a conquista de um primeiro mandato estadual sem terra no estado, que enfrenta o assédio do agronegócio.
“O Maranhão é um estado muito empobrecido, mas de uma gente bonita, trabalhadora, muita gente honesta, séria, que quer ver a boa política, que quer construir uma nova cultura política, que não seja essa da corrupção, que não seja essa da compra e da venda de voto, que não seja essa de projetos que sejam contrários aos trabalhadores, que querem ter uma voz ativa, uma voz presente, uma voz que eles se identifiquem, uma voz de defesa desse projeto que são dos trabalhadores do campo e da cidade do Estado de Maranhão”, disse a pré-candidata.


