O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou nesta quarta-feira (28) a “paralisia” dos organismos regionais e voltou a defender a integração regional e o fortalecimento da América Latina em oposição a uma disputa pela hegemonia no continente. O mandatário disse que os instrumentos multilaterais latino-americanos não funcionaram e pediu a criação de um bloco econômico para enfrentar os desafios dos países do continente.
Em discurso na abertura do Fórum Econômico Internacional da América Latina e Caribe, realizado no Panamá, o mandatário lamentou a divisão político-ideológica vivida na região e pediu que essas diferenças sejam superadas em prol de uma articulação entre os países que ajude a reduzir as desigualdades.
“Temos condições de solo e clima para produção de alimentos, temos recursos minerais, a Amazônia, somos um mercado consumidor de 660 milhões e contamos com a presença de governos eleitos democraticamente. Guiados pelo pragmatismo podemos superar divergências ideológicas e consolidar parcerias sólidas e positivas dentro e fora da região”, afirmou.
O presidente brasileiro também afirmou que as instituições multilaterais criadas para a América Latina e o Caribe perderam força de articulação e proposição. Ele citou como exemplo a atuação hoje da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac).
“A breve experiência da Unasul sucumbiu ao peso da intolerância. Voltamos a ser uma região dividida, permitindo que conflitos e disputas ideológicas se imponham. Nossas cúpulas se tornaram rituais vazios com a ausência dos principais líderes regionais. A Celac está paralisada e não consegue emitir declaração contra intervenções militares. Esses desafios colocam o desafio do regionalismo possível para a América Latina”, afirmou.
Lula fez uma menção indireta aos Estados Unidos ao criticar a atuação e os interesses de Washington de hegemonizar e ameaçar militarmente a região. Ele não falou sobre a invasão e o bombardeio à Venezuela, além do sequestro do presidente Nicolás Maduro, mas disse que a proximidade com a maior potência militar do mundo oferece um risco à agenda política, especialmente com as “tentações hegemônicas” vividas em Washington.
De acordo com o mandatário, o uso da força não “pavimentará” o caminho para superar as mazelas do nosso continente. Ele, no entanto, reforçou que os Estados Unidos já foram um parceiro da região com o ex-presidente Franklin D. Roosevelt a partir da defesa de direitos internacionais.
Ele ainda aproveitou o discurso para celebrar os resultados econômicos do Brasil durante o seu mandato e os “esforços” para promover a integração regional, inclusive comemorando o acordo entre Mercosul e União Europeia, mesmo com críticas de economistas da esquerda.
“Com o unilateralismo, os paradigmas ligados ao pan-americanismo e ao bolivarianismo são insuficientes. Devemos olhar a União Europeia como referência positiva, mas temos que levar em conta as desigualdades regionais. No Congresso de 1826, surgiram ideias que ganharam expressão no direito internacional: manutenção da paz, solução pacífica, integridade territorial dos Estados. Isso se mostrou insuficiente para fomentar instituições regionais efetivas”, afirmou.
O presidente falou durante 29 minutos e ainda defendeu a neutralidade no Canal do Panamá. Para ele, o espaço é administrado de maneira segura há três décadas. O canal tem sido ameaçado há um ano pelo governo dos EUA. Desde que assumiu, Donald Trump falou que “recuperaria” o controle total da estrutura sob argumento de que seu país o construiu e, portanto, nunca permitiria que este caísse “em mãos equivocadas”, em referência à China, que não faz parte da administração do canal.
Além disso, ele considerava muito altas as tarifas cobradas pela administração do canal, que está nas mãos dos panamenhos desde 1999, data acordada nos tratados assinados pelo ex-presidente estadunidense James Carter e pelo general panamenho Omar Torrijos, em 1977.
Lula também reforçou a necessidade de combater a nível regional a violência contra a mulher, os crimes digitais e colocou a distribuição de renda como ponto central das políticas de desenvolvimento para a América Latina.
“Os pobres precisam estar no orçamento. Eu falei pro presidente do Chile [José Antonio Kast]: muito dinheiro nas mãos de poucos é pobreza. Pouco dinheiro nas mãos de muitos significa riqueza”, concluiu. (Brasil de Fato)

