Luiz Carlos Bordoni (*)
O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), entra no debate presidencial com uma vantagem objetiva: segurança pública é hoje o principal problema percebido pela população, e Goiás apresenta indicadores melhores do que a média nacional em homicídios, roubos e furtos. Isso lhe permite falar de resultados, não apenas de discurso. Em política, isso vale muito.
Ao escolher enfatizar a queda da criminalidade e evitar o tema da letalidade policial, Caiado faz um cálculo claro. Ele se posiciona junto a um eleitorado que associa firmeza policial à sensação de ordem e proteção — um campo majoritário no debate público atual. Tocar frontalmente na letalidade poderia diluir essa mensagem e abrir flancos tanto à esquerda quanto a setores garantistas do Judiciário.
Esse discurso ganha força porque a segurança é o calcanhar de Aquiles do governo federal. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta dificuldades históricas nesse tema: a base governista é heterogênea, o debate é travado por disputas ideológicas e os resultados concretos demoram a aparecer. Caiado explora exatamente esse vácuo, apresentando-se como gestor pragmático, avesso a retórica e focado em ordem.
No entanto, há limites claros para essa estratégia. Primeiro, a pauta da segurança, isoladamente, não ganha eleição presidencial. Ela mobiliza, mas não sustenta uma candidatura nacional sem ancoragem econômica, social e institucional. Segundo, a questão da letalidade policial não desaparece: ela tende a emergir com força em um debate nacional, sobretudo no segundo turno, onde escrutínio internacional, mídia e setores urbanos progressistas ganham peso.
Além disso, Caiado enfrenta um desafio de escala. Resultados estaduais não se transferem automaticamente para o plano federal. O eleitor tende a perguntar: como aplicar esse modelo em realidades como Rio de Janeiro, Bahia ou Amazônia? Sem uma proposta nacional estruturada — integração federativa, inteligência, sistema prisional e financiamento — o discurso corre o risco de parecer apenas retórico.
Em resumo: Caiado é competitivo no discurso da ordem, ocupa um espaço real na centro-direita e se beneficia do desgaste do governo Lula na segurança. Mas sua viabilidade presidencial dependerá de ampliar a narrativa, enfrentar temas sensíveis — inclusive a letalidade — e provar que não é apenas um governador eficiente, mas um projeto nacional viável. Segurança abre a porta. Sozinha, não garante a travessia.
Luiz Carlos Bordoni é Jornalista

