Em meio a ameaças de novos vetos presidenciais e pressão por anistia a presos políticos, a relação entre o Palácio do Planalto e o Legislativo evidencia as tensões da governabilidade e antecipa os desafios para as eleições de 2026.
A aparente trégua entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o Congresso Nacional mostra sinais de esgotamento. O Planalto sinalizou que deve vetar integralmente o projeto aprovado pela Câmara que trata de “supersalários” para servidores do Legislativo, reacendendo um conflito latente.
“A gente tem um Congresso bastante de direita. No senso comum da política nacional, estamos falando de um Congresso dominado por partidos de direita e alguns integrantes de extrema direita”, analisa a cientista política e professora da Fundação Escola Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) Tathiana Chicarino ao Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato.
Ela lembra que essa configuração se consolidou nos últimos anos, a partir do impeachment de Dilma Rousseff, passando pelo governo Michel Temer e se fortalecendo durante a gestão de Jair Bolsonaro, quando parlamentares ganharam poderes orçamentários ampliados.
Outro ponto de atrito é o chamado PL da Anistia ou PL da Dosimetria. Apesar de a urgência inicial do Congresso em derrubar o veto presidencial ao projeto ter arrefecido — especialmente após a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro —, Chicarino acredita que a pressão continuará.
“Eles vão tentar de todas as maneiras”, afirma a cientista política. Ela contextualiza que a anistia pressupõe a admissão de um crime, neste caso, “um crime de violação da democracia”, e que a sociedade precisa se manter alerta. “Neste momento, com a política, tudo pode mudar. Hoje as chances [de aprovar] são menores, mas a tentativa é sempre presente”, completa, destacando o elemento “clânico” e familiar do bolsonarismo, que busca manter a chama da extrema direita acesa.
Enquanto os embates institucionais seguem, as pesquisas eleitorais para 2026 pintam um cenário favorável ao presidente. Lula lidera todos os cenários de primeiro turno na maioria dos levantamentos. Tatiana explica que um presidente que busca a reeleição (o “incumbente”) tem vantagens naturais: alta exposição midiática e a capacidade de executar políticas públicas. “O fato de Bolsonaro não ter sido reeleito, considerando essas vantagens, foi algo fora do padrão”, pondera.
Para pavimentar o caminho, Lula tem feito movimentos de aproximação estratégicos, dialogando diretamente com o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP), e se reunindo com figuras como o ex-ministro Ciro Nogueira (PP). Há especulações sobre uma possível frente ampla que poderia incluir partes do MDB e do PSD, partido do ministro Gilberto Kassab, que comanda mais de 800 prefeituras pelo país.
No entanto, a cientista política vê com cautela a transformação dessas alianças por governabilidade em vantagem eleitoral. “Na medida em que o eleitor enxerga um Lula tão parecido com os outros [políticos], por que tenho que votar nele?”, questiona. Ela destaca que a arte do presidente sempre foi equilibrar aproximação e diferenciação, tarefa mais complexa na era das redes sociais e da inteligência artificial.
Fim da escala 6×1
No front legislativo, uma pauta de alto apelo popular ganha corpo: o fim da escala de trabalho 6×1, projeto abraçado pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e enviado à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Apesar do caráter popular, Chicarino demonstra ceticismo sobre seu avanço.
“Tenho dúvidas se essa pauta vai chegar a ter atenção durante as eleições”, afirma. Ela explica que, na Ciência Política, poucos temas conseguem de fato dominar uma campanha. “Me parece que a chance de empurrar com a barriga é bastante grande. Se a gente entra pela CCJ, vai ser discutido pelas comissões, e aí eleição, e aí acabou”, avalia, citando a forte pressão do lobby empresarial contra a medida e a configuração do Parlamento atual, que, em sua visão, “não está voltada exatamente para essa questão, nem para o interesse nacional”.
O cenário desenhado é de um Palácio do Planalto que joga em várias frentes: contém a onda conservadora no Congresso, mantém sua popularidade nas pesquisas, tece alianças pragmáticas e tenta avançar uma pauta social emblemática — tudo isso enquanto se prepara para uma disputa eleitoral que, embora distante, já começou a moldar suas estratégias e seus conflitos.(Brasil de Fato)


