Brasília, 07/03/2026

BAFTA: Escolha não é derrota

Luiz Carlos Bordoni

Bafta. Nós não perdemos, não fomos escolhidos. Há, sim, uma diferença sutil — mas poderosa — entre “perder” e “não ser o escolhido”. A palavra carrega peso. “Perder” sugere posse anterior, fracasso, derrota. “Não ser o escolhido” preserva a dignidade de quem já estava entre os melhores.

Estar indicado ao BAFTA Awards já é uma consagração. É sentar-se à mesa dos grandes. É ouvir seu nome pronunciado no Royal Festival Hall, em Londres, diante da indústria cinematográfica mundial.

O filme de Kleber Mendonça Filho não “perdeu”. Foi finalista. Foi reconhecido. Foi celebrado. Competiu com produções da Noruega, Espanha, França, Tunísia. Isso não é derrota — é estatura.

A imprensa, muitas vezes, adota a lógica esportiva: ganhou ou perdeu. Mas o cinema não é um jogo de futebol. Não há placar. Há avaliação estética, política, cultural, subjetiva. Alguém precisa ser escolhido. Só isso.

Sobre esse verbo, cabe lembrar que a Academia americana trocou o “The winner is…” por “And the Oscar goes to…”. A mudança não foi casual. Retirou-se a ênfase no “vencedor” para suavizar a ideia de derrota. Porque, ali, ninguém é pequeno.

Além de Wagner Moura, o Brasil esteve representado por técnicos e documentaristas. Isso revela a maturidade da nossa produção audiovisual. Não é episódico. É consistência.

E há algo mais bonito nisso tudo: Wagner dizendo no tapete vermelho — “um filme falado em português”. Não é detalhe. É afirmação cultural. É identidade. É língua que atravessa oceanos.

Talvez o maior prêmio não seja o troféu de metal, mas o reconhecimento de estar entre os melhores do mundo. E isso o Brasil já levou para casa.

O resto é escolha de júri. Não é derrota.

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