Brasília, 07/03/2026

A República que falha com suas mulheres

Luiz Carlos Bordoni (*)

Há algo de profundamente doente quando um país naturaliza manchetes sobre estupros, assédios e feminicídios como quem comenta a previsão do tempo. Não são números. São meninas de 12 anos. São mulheres que voltavam do trabalho. São mães, filhas, profissionais. São vidas interrompidas por um sentimento antigo e perverso: a ideia de posse.

O Brasil fechou 2025 com recorde de feminicídios — mais de quatro mulheres assassinadas por dia pelo simples fato de serem mulheres. Em 2024, foram mais de 24 mil estupros registrados. Neste começo de 2026, as denúncias continuam em ritmo assustador. Não é uma curva eventual. É um padrão. É um sistema que falha.

E quando a violência alcança os corredores do poder, o abismo se amplia.

Nos últimos dias, vieram à tona investigações e denúncias envolvendo autoridades do Judiciário e da alta administração pública. O Conselho Nacional de Justiça apura a atuação de magistrado mineiro em decisão que absolveu acusado de estupro de vulnerável. Um ministro do Superior Tribunal de Justiça foi acusado de importunação sexual. Um ex-ministro de Estado deixou o cargo após denúncias de assédio. Em paralelo, o Tribunal Superior do Trabalho registra milhares de ações envolvendo assédio sexual.

Ninguém aqui antecipa culpa. O devido processo legal é cláusula pétrea da democracia. Mas o simples fato de que denúncias desse tipo atinjam quem deveria proteger a sociedade é, por si só, devastador. A vítima comum olha para cima e pergunta: “Se nem lá há exemplo, onde haverá?”

A violência contra a mulher não nasce no crime extremo. Ela começa no controle, no ciúme patológico, na desqualificação, no assédio no ambiente de trabalho, na relativização da palavra da vítima. Cresce no silêncio cúmplice, na piada tolerada, na desculpa repetida: “Ele é um bom homem”, “foi só um erro”, “ela provocou”.

O Estado não é impotente. O Brasil tem leis robustas — a Maria da Penha é referência internacional. O feminicídio é tipificado. Medidas protetivas existem. O problema é a distância entre a lei escrita e a vida real. Delegacias sem estrutura. Investigações lentas. Medidas protetivas descumpridas sem resposta imediata. Abrigos insuficientes. Dependência financeira que aprisiona.

E há algo ainda mais grave: a cultura da indulgência com o agressor poderoso. Quando o acusado tem cargo, influência ou toga, parte da sociedade se apressa em defender reputações antes de proteger vítimas. É nesse ponto que a República falha moralmente.

Combater essa epidemia exige mais do que indignação pontual. Exige prioridade absoluta na investigação e julgamento de crimes de violência sexual e doméstica.

Exige monitoramento rigoroso de medidas protetivas. Exige estrutura real para acolhimento e autonomia financeira das mulheres. Exige transparência e firmeza das corregedorias quando denúncias atingem autoridades. Exige educação de meninos e homens para o respeito e o consentimento.

Mas, acima de tudo, exige uma mudança cultural profunda: parar de perguntar por que ela ficou e começar a perguntar por que ele agrediu. Parar de desconfiar da vítima e começar a responsabilizar o agressor.

Uma sociedade é medida pela forma como protege seus vulneráveis. Quando meninas de 12 anos viram estatística, quando mulheres são assassinadas por serem mulheres, quando denúncias chegam aos mais altos escalões do poder, não estamos diante de casos isolados. Estamos diante de um teste civilizatório.

O Brasil precisa decidir que lado da história quer ocupar, ou continuaremos contando corpos — e manchetes — como se fossem inevitáveis. E não são.

(*) Luiz Carlos Bordoni é Jornalista

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