Brasília, 09/03/2026

As linhas e entrelinhas das pesquisas e o efeito Bolsonaro

Luiz Carlos Bordoni (*)

Há um movimento político curioso acontecendo, e ele ajuda a explicar parte do cenário que as pesquisas começam a mostrar. Vamos por partes. Bastidores e entrelinhas nos oferecem leituras interessantes.

Parte 1: O enigma do PSD de Kassab

O presidente do Partido Social Democrático (PSD), Gilberto Kassab, montou um ativo político poderoso, mas ainda pouco visível para o eleitor. Ele reuniu três governadores com densidade eleitoral: Ronaldo Caiado (Goiás), Eduardo Leite (Rio Grande do Sul) e Ratinho Júnior (Paraná).

Em teoria, seria um campo forte para uma candidatura presidencial competitiva. Mas o que se vê até agora é exatamente o ponto intrigante: silêncio político, pouca movimentação nacional e ausência de discurso unificado. Nenhum deles percorre o país, não há caravanas, não há projeto apresentado ao eleitor. Isso cria uma sensação de estratégia invisível.

Existem duas hipóteses principais nos bastidores: a) Kassab joga para o segundo turno. O PSD evita gastar energia agora e se posiciona para apoiar quem chegar mais forte na reta final. b) Kassab aposta na fragmentação da direita. Se o campo conservador se dividir entre vários nomes, abre-se espaço para um candidato “moderado” mais adiante.

Mas até aqui, para quem olha de fora, parece um projeto sem narrativa e eleição sem narrativa dificilmente mobiliza eleitor.

Parte 2: O movimento silencioso de Bolsonaro

Importante: mesmo preso e fora da disputa, Jair Bolsonaro continua influenciando o tabuleiro. O gesto mais importante foi neutralizar politicamente Tarcísio de Freitas. Tarcísio poderia ser o candidato natural da direita. Afinal, é governador de São Paulo, tem boa aprovação, respeitável perfil técnico. Mas optou por permanecer no estado, por lealdade ao ex-presidente. Esse movimento abriu espaço para um nome que muitos subestimavam.

Parte 3: A aposta em Flávio Bolsonaro

Com Tarcísio fora do jogo, surge o senador Flávio Bolsonaro. No início, a leitura predominante era de que ele não teria densidade nacional. Mas o que as pesquisas começam a indicar é outra coisa: ele herda o eleitorado bolsonarista quase automaticamente.

E isso não é pouca coisa. O bolsonarismo consolidou um núcleo duro entre 30% e 35% do eleitorado. Quem controla esse eleitorado começa o “campeonato” competitivo.

Por isso, o desempenho de Flávio nas pesquisas surpreende menos quando se olha o fenômeno estrutural: ele não parte do zero — parte do capital político do pai.

Parte 4: O problema dos governadores

Enquanto isso, governadores que poderiam ocupar esse espaço nacional continuam muito presos aos seus estados.

Ronaldo Caiado fala como presidenciável, mas sua projeção ainda é regional. Eduardo Leite enfrenta limitações eleitorais fora do Sul. Ratinho Júnior é forte no Paraná, mas pouco conhecido nacionalmente.

Sem movimento nacional, sem discurso forte e sem agenda clara, eles acabam aparecendo apenas nas pesquisas — não na política real do dia a dia.

Parte 5: O risco para Lula

Nesse cenário, Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta outro problema: desgaste de governo. Quando a aprovação cai e a rejeição cresce, o presidente deixa de disputar apenas contra adversários — passa a disputar também contra o humor do eleitorado. E quando surge um adversário competitivo, mesmo que inesperado, o jogo muda.

Encerrando a conversa

O quadro atual revela três movimentos simultâneos: o PSD cheio de nomes, mas sem campanha; Bolsonaro, mesmo fora do jogo, reorganizando a direita; e Flávio Bolsonaro ocupando um espaço que parecia vazio.

Faltando apenas seis meses para a eleição, a política brasileira vive um momento curioso: há muitos candidatos potenciais, mas poucos em campanha de fato. Nesse vazio, quem tem eleitorado organizado tende a crescer. E é exatamente isso que as pesquisas começam a mostrar.

(*) Luiz Carlos Bordoni é Jornalista

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