Brasília, 16/06/2026

O peso de um Parlamento caro demais

Luiz Carlos Bordoni (*)

O Parlamento é indispensável à democracia. É nele que se aprovam leis, fiscalizam-se governos, discutem-se os grandes temas nacionais e se representa a diversidade política do país. O problema brasileiro não está na existência do Congresso, mas no custo excessivo de sua estrutura e na distância entre aquilo que ele consome dos cofres públicos e aquilo que efetivamente entrega à população.

Estudos sobre contas públicas apontam há anos que o Parlamento brasileiro está entre os mais caros do mundo. Em 2026, o orçamento do Congresso Nacional chega a cerca de R$18 bilhões, sem contar as emendas parlamentares. Além disso, o Orçamento aprovado para 2026 reservou cerca de R$61 bilhões para emendas, instrumento que, embora previsto legalmente, tornou-se um dos centros de poder da política nacional.

A crítica se torna ainda mais forte quando esse custo é comparado à realidade econômica do cidadão brasileiro. Não se trata apenas de saber quanto custa o Congresso em números absolutos. O ponto central é medir o peso dessa despesa em relação ao PIB, ao PIB per capita e à renda média da população. Países ricos até podem sustentar parlamentos caros sem que isso represente sacrifício tão visível para o contribuinte. No Brasil, onde faltam recursos para saúde, educação, segurança e infraestrutura, a conta pesa muito mais.

Por isso, a discussão não deve ser simplificada como ataque à política ou ao Parlamento. Democracia custa dinheiro. Representação popular exige estrutura. Deputados e senadores precisam de equipes, assessoria técnica, canais de comunicação e condições de trabalho. Mas democracia não pode ser confundida com privilégio. Estrutura pública não pode virar sinônimo de excesso, penduricalho, gabinete inchado, cota generosa e distância da realidade nacional.

O incômodo da sociedade nasce exatamente desse contraste. Enquanto milhões de brasileiros enfrentam salários baixos, endividamento, transporte ruim, filas no SUS e escolas com dificuldades, a máquina parlamentar parece viver em outro país. O cidadão comum aperta o orçamento, corta despesas, adia sonhos. Já o Estado, muitas vezes, preserva privilégios, amplia fundos, multiplica verbas e encontra justificativas técnicas para gastos que a população já não aceita moralmente.

Outro ponto delicado é a relação entre custo e qualidade da representação. Um Parlamento caro poderia ser mais tolerado se fosse percebido como eficiente, austero, produtivo e comprometido com reformas de interesse nacional. Mas quando a imagem predominante é de fisiologismo, barganha, emendas pouco transparentes, disputas corporativas e projetos voltados a interesses de grupos, o custo deixa de ser apenas financeiro e passa a ser também ético e político.

O Brasil precisa de um Congresso forte, mas não de um Congresso perdulário. Precisa de parlamentares independentes, mas não de estruturas blindadas contra qualquer cobrança. Precisa de representação política, mas também de transparência, racionalidade e respeito ao dinheiro público. O mandato pertence ao povo; o orçamento que o sustenta também.

No fim, a pergunta que precisa ser feita é simples e incômoda: o Parlamento brasileiro entrega ao país aquilo que custa? Enquanto essa resposta não for claramente positiva, a crítica continuará legítima. Porque, numa democracia madura, o poder público não existe para se servir da sociedade. Existe para servi-la.

(*) Luiz Carlos Bordoni é Jornbalista

Contato – luizcarlosbordoni@gmail.com

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