Luiz Carlos Bordoni (*)
A política brasileira já produziu escândalos de toda natureza: malas de dinheiro, operadores financeiros, rachadinhas, dossiês, delações e filmes de campanha travestidos de documentários históricos. Agora surge um novo capítulo envolvendo a família Bolsonaro: o filme “Dark Horse”, produção biográfica sobre Jair Bolsonaro, que acaba se transformando em mais um foco de desgaste político do clã.
A revelação feita pelo Intercept Brasil é pesada porque desmonta uma narrativa pública construída por Eduardo Bolsonaro. O deputado cassado havia afirmado que sua participação se limitava à cessão de direitos de imagem. Mas os documentos apontam outra direção: ele aparece formalmente como produtor-executivo do projeto, com responsabilidades ligadas ao financiamento e à gestão da produção audiovisual.
Não se trata apenas de um detalhe burocrático. No universo do cinema e do audiovisual, o produtor-executivo ocupa posição estratégica. É quem participa das decisões sobre dinheiro, investidores, patrocínio, incentivos fiscais e viabilidade financeira da obra. Ou seja: o contrato coloca Eduardo numa posição central dentro do projeto.
O problema político nasce justamente aí. A oposição, setores da imprensa e até grupos mais moderados da direita passam a questionar se o filme era apenas uma produção cinematográfica ou parte de uma engrenagem maior de construção política e financeira da imagem bolsonarista.
O caso surge num momento delicado para o PL. O partido enfrenta tensões internas, dificuldades de alianças e dúvidas sobre o futuro eleitoral da família Bolsonaro. Há poucas semanas, setores da própria direita já demonstravam desconforto com o excesso de protagonismo familiar dentro do partido. Agora, a nova polêmica amplia essa sensação.
O episódio também reacende uma velha discussão da política brasileira: a mistura entre projeto político, marketing pessoal e interesses financeiros. Em democracias modernas, líderes políticos naturalmente produzem livros, documentários e conteúdos sobre suas trajetórias. O problema aparece quando surgem dúvidas sobre financiamento, transparência e o papel efetivo dos envolvidos.
Outro fator simbólico pesa contra o clã. O título “Dark Horse” acabou produzindo um efeito contrário ao pretendido. O que deveria fortalecer a narrativa heroica de Jair Bolsonaro transforma-se, ao menos neste momento, em mais uma crise pública. Um filme criado para consolidar imagem passou a alimentar suspeitas e desgaste.
Nos bastidores de Brasília, a avaliação é de que o impacto vai além do audiovisual. A crise atinge diretamente a credibilidade política de Eduardo Bolsonaro. Afinal, o desgaste maior não nasce do filme em si, mas da aparente contradição entre o que foi dito publicamente e o que aparece registrado em contrato.
A oposição certamente vai explorar o caso até o limite. Já os aliados tentam minimizar os danos dizendo que a atuação do deputado era apenas formal ou protocolar. O problema é que, em política, documentos assinados costumam falar mais alto do que versões posteriores.
A dinastia Bolsonaro, acostumada a sobreviver a crises sucessivas, enfrenta agora mais um teste. E talvez o mais preocupante para seus aliados seja justamente isso: a sensação de que as crises deixaram de ser episódios isolados e passaram a formar uma sequência contínua de desgaste.
(*) Luiz Carlos Bordoni é Jornalista


