Luiz Carlos Bordoni (*)
Há momentos em que o cidadão brasileiro olha para Brasília e sente vergonha. Não vergonha ideológica, partidária ou eleitoral. Vergonha institucional. Vergonha de perceber que parte da elite política continua vivendo numa realidade completamente distante das angústias do país real. A aprovação, pela Câmara dos Deputados, do projeto que fragiliza a fiscalização das contas partidárias é mais um desses episódios lamentáveis da nossa história republicana.
Enquanto milhões de brasileiros trabalham duro para sobreviver, pagam impostos sufocantes, enfrentam juros absurdos, serviços públicos precários e uma máquina estatal implacável na cobrança de obrigações, os partidos políticos seguem construindo para si um universo paralelo de privilégios, blindagens e autoproteção. O rigor que vale para o cidadão comum parece não valer para aqueles que comandam o sistema.
O projeto aprovado é um monumento ao corporativismo político brasileiro. Determinar que processos de prestação de contas possam simplesmente ser extintos após três anos sem julgamento equivale, na prática, a premiar a lentidão e a ineficiência. É quase uma anistia disfarçada para irregularidades partidárias. Em qualquer democracia séria, a resposta para falhas de fiscalização seria mais transparência. No Brasil, escolhe-se o caminho inverso: menos controle, menos punição e mais facilidades para quem já dispõe de dinheiro público abundante.
A situação se torna ainda mais grave quando se impede a suspensão do Fundo Partidário nos seis meses anteriores às eleições. Em outras palavras: ainda que existam suspeitas, irregularidades ou problemas graves nas contas, o dinheiro continuará chegando normalmente aos cofres partidários em pleno período eleitoral. O recado dado à sociedade é devastador. A política brasileira parece sempre encontrar mecanismos para proteger a si mesma.
E como se não bastasse, o texto ainda abre espaço para disparos em massa de mensagens políticas. O país passou os últimos anos mergulhado em guerras digitais, campanhas de desinformação, manipulação emocional e radicalização das redes sociais. Em vez de buscar responsabilidade e equilíbrio, o Congresso escolhe flexibilizar ainda mais esse terreno perigoso. É um convite à ampliação da máquina de propaganda política profissionalizada.
O mais revoltante talvez seja a naturalidade com que tudo acontece. O projeto não estava sequer na pauta original. Foi inserido às pressas e aprovado num ritmo que raramente se vê quando o assunto é saúde pública, segurança, educação ou combate à pobreza. Quando se trata de interesses da própria classe política, Brasília costuma funcionar com impressionante eficiência.
O problema é que esse tipo de decisão aprofunda o desgaste das instituições. O brasileiro médio já não sente representatividade. Sente distância. Observa um Congresso frequentemente mais preocupado em garantir proteção aos partidos do que em proteger a população. E isso corrói silenciosamente a confiança na democracia.
Não se trata aqui de atacar a política como instrumento. A política é indispensável. O Parlamento é indispensável. O problema surge quando o espírito público desaparece e dá lugar à lógica da autopreservação. Quando deputados e partidos passam a legislar prioritariamente em benefício próprio, cria-se uma sensação perigosa de impunidade institucionalizada.
O cidadão comum não dispõe de foro privilegiado emocional. Não pode atrasar contas sem sofrer consequências. Não pode escapar de multas tributárias porque o processo demorou demais. Não recebe blindagens especiais perto de momentos importantes da vida. Só os partidos parecem possuir esse tratamento diferenciado. É exatamente isso que revolta.
O Brasil precisava discutir reforma administrativa, redução de desperdícios, eficiência do Estado, fortalecimento da transparência e combate real à corrupção. Mas parte da nossa elite política continua oferecendo ao país exatamente o contrário: menos fiscalização, mais privilégios e mais mecanismos de proteção partidária.
Depois, muitos parlamentares demonstraram surpresa diante do crescimento do descrédito popular, da antipolítica e da raiva social acumulada. Não deveriam. O que afasta o cidadão da política não é apenas a crise econômica. É a sensação permanente de que existem dois países: o Brasil do povo e o Brasil dos privilégios.
E Brasília, infelizmente, continua dando demonstrações claras de qual deles pretende defender primeiro.
(*) Luiz Carlos Bordoni é Jornalista
Contato: luizcarlosbordoni@gmail.com



