Luiz Carlos Bordoni
O governo federal decidiu zerar o imposto de importação sobre compras internacionais de até 50 dólares. A medida agrada milhões de consumidores acostumados a comprar roupas, acessórios e eletrônicos baratos em plataformas estrangeiras. Politicamente, o gesto é simples de entender: ninguém reclama quando o preço cai. Ainda mais a cinco meses de uma eleição presidencial.
Mas há um detalhe importante nessa história: o empresário brasileiro continua sufocado por impostos, burocracia e custos absurdos para produzir dentro do próprio país.
A indústria nacional paga carga tributária elevada, encargos trabalhistas, energia cara, aluguel caro, crédito caro e enfrenta uma máquina pública lenta e pesada. Enquanto isso, plataformas estrangeiras passam a vender produtos praticamente livres de tributação em pequenas remessas destinadas justamente às pessoas físicas, ou seja, aos eleitores.
A reação da CNI não surpreende. A entidade foi ao STF alegando concorrência desleal e quebra da isonomia tributária. E o argumento possui lógica econômica. O governo cria um ambiente em que o produto estrangeiro chega mais barato não necessariamente porque seja melhor ou mais eficiente, mas porque o sistema brasileiro pune quem produz aqui dentro.
O debate verdadeiro não deveria ser apenas sobre taxar ou destaxar blusinhas. O problema central é outro: por que produzir no Brasil virou quase um castigo?
O país parece viver um paradoxo permanente. O discurso oficial fala em fortalecimento da indústria nacional, reindustrialização e geração de empregos. Na prática, porém, o ambiente econômico empurra empresas para a perda de competitividade, enquanto premia importações de baixo custo.
É evidente que o consumidor busca preço menor. Isso é natural. Em tempos de renda apertada, cada real faz diferença. Mas também é preciso perguntar qual será o efeito disso no médio prazo. Se a indústria perde mercado, o comércio enfraquece e empregos desaparecem, a conta social acaba chegando depois.
O governo preferiu uma medida popular e imediata. Politicamente, faz sentido eleitoral. Economicamente, abre uma discussão séria sobre o futuro da produção nacional. Um país não se desenvolve apenas comprando barato. Desenvolve-se produzindo, gerando empregos, renda e competitividade e isso exige coragem para enfrentar o verdadeiro problema: o manicômio tributário brasileiro.