247 – A investigação da Polícia Civil de São Paulo sobre um contrato de R$ 108 milhões firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil (ICB) ganhou novos desdobramentos após declarações do presidente da Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Adpesp), André Santos Pereira. Em entrevista ao UOL, ele afirmou que há “indícios de fraude” no acordo firmado durante a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB).
Segundo a reportagem original do UOL, a apuração está relacionada a suspeitas envolvendo o contrato do programa Wi-Fi Livre SP e possíveis conexões com a produção do filme “Dark Horse”, que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A investigação também analisa uma suposta confusão patrimonial entre o ICB e a produtora Go UP Entertainment, ambos ligados à empresária Karina Ferreira da Gama.
Ao comentar o caso, André Santos Pereira ressaltou que a atuação da Polícia Civil está baseada em elementos já identificados durante a investigação. “Há indícios de fraudes, houve investigação, manifestação do TCM (Tribunal de Contas do Município) indicando 20 irregularidades nos contratos, então, a Polícia Civil está realizando seu papel amparada por decisões judiciais”, declarou ao UOL.
O dirigente da Adpesp também rejeitou qualquer motivação político-partidária nas ações da corporação. “A Polícia Civil não tem aliados políticos”, afirmou.
A operação foi deflagrada na última segunda-feira e teve como foco o contrato firmado entre o ICB e a administração municipal. De acordo com informações apresentadas à Justiça pelo delegado Antônio Carlos Munuera Silveira, titular da 2ª Delegacia de Crimes Contra a Administração Pública, Combate à Corrupção e Lavagem de Dinheiro (DICCA), existem suspeitas de que recursos públicos destinados ao programa municipal possam ter sido desviados.
No documento encaminhado ao Judiciário, o delegado apontou indícios de que “recursos públicos do programa ‘Wi-Fi Livre SP’ tenham sido desviados para custear as atividades de produção do referido filme, utilizando as contas das empresas subcontratadas e das demais organizações sociais geridas pela investigada para a lavagem dos valores desviados do erário de São Paulo”.
Prefeitura nega irregularidades
O prefeito Ricardo Nunes contestou a investigação e questionou a relação entre o contrato e a produção cinematográfica. Segundo ele, não haveria conexão temporal entre os fatos investigados.
“Por que só agora veio essa questão?”, questionou o prefeito. Nunes argumentou que o processo referente ao contrato ocorreu em junho de 2024, enquanto a comunicação à Spcine sobre a gravação do filme ocorreu apenas em outubro de 2025. “Não existe relação”, afirmou.
Em nota oficial, a Prefeitura de São Paulo negou qualquer irregularidade. A administração municipal declarou que “repudia veementemente ilações de desvios de recursos públicos” e sustentou que o contrato com o Instituto Conhecer Brasil observou “rigorosamente os princípios da legalidade, transparência e economicidade”.
A gestão municipal informou ainda que está colaborando com as autoridades e já forneceu informações solicitadas pelos investigadores. Ricardo Nunes também classificou a operação como uma forma de “perseguição política”.
“Ninguém está acima da lei”, diz presidente da Adpesp
Em resposta às críticas, André Santos Pereira afirmou que o papel da Polícia Civil é investigar independentemente da posição política ou institucional dos envolvidos.
“A manifestação do prefeito e de outros atores conduz a discussão para o campo político”, disse. Segundo ele, é necessário evitar a politização do debate para que a população compreenda adequadamente a atuação das instituições.
O delegado acrescentou que “pessoas não são maiores do que instituições” e enfatizou que “político nenhum pode ser maior do que a polícia”.
O presidente da Adpesp também defendeu atenção permanente contra possíveis tentativas de interferência política em investigações. “Interferências políticas podem acontecer dado o histórico do país. Nossa obrigação é trabalhar para isso não acontecer”, afirmou.
Ao abordar o tema, ele citou investigações de grande repercussão nacional, como o Mensalão e a Operação Lava Jato, argumentando que pressões externas podem surgir em diferentes momentos dos procedimentos investigativos.
Instituto Conhecer Brasil afirma que vai colaborar
O Instituto Conhecer Brasil informou que está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos e acompanhar as apurações.
Em nota, a entidade afirmou ter contratado serviços de perícia e auditoria especializada para auxiliar na análise técnica e jurídica do caso.
“Reafirmamos nossa convicção de que os procedimentos em curso permitirão demonstrar a regularidade das ações desenvolvidas pela instituição, bem como evidenciar a correta aplicação dos recursos e a inexistência de desvio de finalidade nos projetos executados”, declarou o instituto.
Polícia Civil reage a críticas da Prefeitura
De acordo com a reportagem do UOL, integrantes da cúpula da Polícia Civil demonstraram insatisfação com as declarações do prefeito Ricardo Nunes. Delegados ouvidos pela publicação afirmaram que a operação decorreu de requisições apresentadas pelo Ministério Público Federal e pelo Ministério Público de São Paulo.
Segundo essas fontes, a ação policial teve caráter técnico e foi realizada em cumprimento de determinações legais, sem motivação política.
Houve ainda divergências internas sobre a conveniência de reagir judicialmente às declarações do prefeito. Enquanto alguns delegados defenderam medidas legais, outros avaliaram que o foco principal deve permanecer na apuração dos indícios de fraude apontados pela investigação.
Tarcísio reforça autonomia da Polícia Civil
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), também comentou o caso e reafirmou a independência da Polícia Civil na condução de investigações.
“A operação da polícia é uma coisa em que a gente não interfere”, afirmou durante agenda em Rio Claro, no interior paulista.
Tarcísio acrescentou que “a polícia tem autonomia para fazer suas investigações, para fazer as suas operações. É uma instituição de Estado”.
Segundo o governador, a operação ocorreu em razão de uma investigação já em andamento e de demandas apresentadas pelo Ministério Público. “A polícia vai ser e sempre será uma instituição de Estado, está a serviço do Estado”, declarou.
Sindicato dos delegados também defende independência das investigações
A presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp), Jacqueline Valadares, manifestou apoio à autonomia da Polícia Civil.
Segundo ela, delegados de carreira devem ter independência para conduzir investigações, incluindo a coleta de provas, requisição de perícias, obtenção de documentos, instauração de inquéritos e eventual indiciamento de suspeitos.
A entidade destacou ainda que os sete mandados de busca e apreensão cumpridos na segunda-feira foram autorizados pela 1ª Vara Regional de Garantias, dentro de inquérito instaurado pela DICCA após solicitação do Ministério Público de São Paulo.
As investigações seguem em andamento e buscam esclarecer se houve irregularidades na execução do contrato entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil, bem como eventual utilização indevida de recursos públicos.


