Luiz Carlos Bordoni
As manchetes destacaram a liderança do presidente Lula no primeiro turno e sua vantagem nos cenários de segundo turno. Os números são relevantes e merecem atenção.
Mas existe um dado na pesquisa Quaest que pode ser ainda mais importante do que todos os outros. Na pesquisa espontânea, quando o entrevistador não apresenta nomes aos eleitores, 56% dos brasileiros dizem não saber em quem votar. Cinco em cada dez eleitores. Mais da metade do país.
É um número impressionante, principalmente porque estamos falando de uma eleição que tem como protagonistas dois personagens amplamente conhecidos pela população. De um lado, Lula. Do outro, o bolsonarismo representado por Flávio Bolsonaro.
Não estamos diante de candidatos desconhecidos tentando construir suas imagens. Estamos falando dos dois grupos políticos que dominam o debate nacional há mais de uma década. Por isso, os 56% de indecisos merecem reflexão.
O dado sugere que o eleitor conhece os candidatos, mas ainda não decidiu se quer escolhê-los. É uma diferença enorme.
Em eleições anteriores, a polarização costumava produzir um fenômeno de cristalização antecipada. O eleitor já chegava ao início da campanha sabendo exatamente de que lado estava. Hoje, aparentemente, não. Existe uma parcela significativa da população observando o cenário, acompanhando os acontecimentos, mas sem entusiasmo suficiente para declarar espontaneamente uma preferência.
Talvez estejamos diante dos primeiros sinais de desgaste da polarização. Não necessariamente uma rejeição a Lula ou ao bolsonarismo, mas uma fadiga. Uma sensação de que o país continua discutindo os mesmos personagens, os mesmos conflitos e as mesmas disputas há tempo demais.
Isso ajuda a explicar outro fenômeno revelado pela pesquisa. Lula lidera, Flávio aparece em segundo, mas nenhum dos dois consegue capturar espontaneamente sequer um quarto do eleitorado.
Lula registra 22%. Flávio, 17%. Somados, chegam a 39%. Os indecisos, sozinhos, alcançam 56%. É uma situação incomum para uma disputa tão polarizada e talvez explique por que nomes como Caiado, Zema e Renan continuam tentando encontrar espaço. Não porque estejam fortes, os números mostram exatamente o contrário, mas porque existe um enorme contingente de eleitores ainda disponível. Um contingente que conhece os principais candidatos e, mesmo assim, permanece sem declarar uma escolha.
A grande questão para 2026 talvez não seja quem lidera hoje. A grande questão é quem conseguirá conquistar esse eleitor que conhece todo mundo, acompanha a política, mas ainda não se sente representado por ninguém. É aí que mora a verdadeira disputa. Não nos 39% de Lula. Nem nos 29% de Flávio, mas nos 56% que continuam olhando para o cenário e respondendo uma única palavra: indeciso.

