Luiz Carlos Bordoni
O escândalo do Banco Master ganhou nesta semana um novo ingrediente capaz de elevar ainda mais a temperatura política em Brasília. Depois de ter sua segunda proposta de delação premiada rejeitada pela Polícia Federal, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro passou a protagonizar uma disputa pública com os próprios investigadores responsáveis pela apuração do caso.
A reportagem publicada pela revista Veja revelou detalhes de bastidores das negociações entre a defesa do empresário, a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República. Segundo os advogados de Vorcaro, as autoridades encarregadas da investigação estariam demonstrando pouco interesse em aprofundar determinadas denúncias envolvendo autoridades políticas e integrantes do Judiciário.
A alegação é grave. Os defensores sustentam que algumas informações apresentadas pelo ex-banqueiro estariam acompanhadas de provas e, mesmo assim, teriam sido descartadas ou recebidas com resistência pelos investigadores. A defesa chegou a levar essa reclamação ao ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal.
Do outro lado, porém, a versão apresentada pela Polícia Federal é completamente diferente.
Os investigadores afirmam que as duas propostas de delação apresentadas até agora não atenderam aos requisitos exigidos para um acordo de colaboração premiada. Segundo essa avaliação, Vorcaro teria omitido informações importantes, protegido pessoas próximas e apresentado versões incompatíveis com provas já obtidas por meio de quebras de sigilo, documentos e aparelhos eletrônicos apreendidos durante a investigação.
A PF também sustenta que parte das revelações oferecidas pelo ex-banqueiro não agregaria elementos novos às apurações ou apresentaria inconsistências relevantes. Em outras palavras, os investigadores entendem que Vorcaro ainda não entregou tudo o que sabe.
Esse talvez seja o aspecto mais importante do atual momento da investigação.
A discussão deixou de ser apenas sobre os fatos investigados e passou a envolver a credibilidade dos próprios protagonistas da negociação. De um lado, uma defesa que acusa os órgãos de investigação de ignorarem denúncias potencialmente explosivas. De outro, investigadores afirmam estar diante de um colaborador que ainda resiste a abrir completamente seus arquivos e revelar todos os detalhes do esquema.
É preciso cautela. As acusações mencionadas pela defesa e divulgadas pela imprensa ainda dependem de comprovação. O próprio histórico das delações premiadas no Brasil mostra que declarações de investigados não podem ser confundidas com provas. Elas precisam ser confirmadas por documentos, registros financeiros, movimentações bancárias, mensagens, testemunhos ou outros elementos que sustentem juridicamente as acusações.
Por essa razão, transformar relatos em condenações antecipadas seria um erro tão grave quanto ignorar denúncias eventualmente consistentes.
O fato concreto é que a segunda rejeição da proposta de delação aumenta a pressão sobre Daniel Vorcaro. Quanto mais tempo durar esse impasse, maior será a expectativa em torno do que ele realmente sabe e do que ainda não revelou.
Afinal, se a Polícia Federal está correta, o ex-banqueiro continua escondendo informações relevantes. Se a defesa estiver certa, haverá necessidade de explicar por que determinadas acusações não avançaram.
Enquanto essa disputa permanece sem solução, uma certeza se impõe: o caso Master está longe do fim. O que hoje parece apenas uma negociação frustrada de delação pode se transformar, nos próximos meses, em um dos capítulos mais delicados das relações entre poder econômico, política e instituições da República. E é justamente por isso que a prudência continua sendo a melhor companheira do jornalismo.
Por enquanto, há muitas acusações, muitas versões e poucas conclusões definitivas. O restante ainda pertence ao terreno das investigações.

