Brasília, 19/06/2026

Em Portugal direita se alia à esquerda contra reforma das leis do trabalho

O Parlamento português derrubou a reforma das leis do trabalho proposta pelo governo liberal do premiê Luís Montenegro. O detalhe mais surpreendente foi o voto do partido Chega: a ultradireita voltou a ficar ao lado da esquerda. A explicação é menos ideológica do que parece e muito mais política. Informações da CNN.

O governo luso queria tornar o mercado de trabalho mais flexível. A proposta ampliava contratos temporários, recuperava o banco de horas negociado diretamente entre empresa e trabalhador, facilitava o outsourcing depois de demissões coletivas e mudava regras sobre horários, licenças, turnos e despedimentos. A promessa era conhecida: menos rigidez para as empresas, mais competitividade e, no fim, melhores salários.

A esquerda rejeitou o pacote porque o considerava uma redução da proteção dos trabalhadores. O Chega chegou ao mesmo voto por outro caminho. André Ventura percebeu que apoiar a reforma significaria assumir o custo de medidas impopulares entre trabalhadores, aposentados e famílias de renda mais baixa — os grupos onde o partido quer crescer.

Por isso, o Chega apresentou exigências: proteção das mães trabalhadoras, limites à substituição de demitidos por terceirizados, valorização do trabalho por turnos e das horas extras, mais férias e redução da idade da aposentadoria. O governo aceitou discutir alguns pontos, mas recusou transformar as pensões em moeda de troca para aprovar o Código do Trabalho. Sem acordo, Ventura votou contra.

Há convicção, mas há sobretudo cálculo. O Chega não quer emprestar votos para Montenegro governar. Quer substituir o PSD como principal força da direita. Se aprovasse a reforma, ajudaria o primeiro-ministro a mostrar capacidade de decisão e ficaria ligado aos efeitos negativos da lei. Ao derrubá-la, apresenta-se como defensor de quem trabalha e deixa o governo mais fraco.

É assim que a ultradireita pode votar com a esquerda sem se tornar de esquerda. Os partidos de esquerda querem preservar direitos trabalhistas e o poder sindical. O Chega procura conquistar trabalhadores descontentes combinando nacionalismo, crítica à imigração e promessas sociais. O voto foi o mesmo; o projeto de país continua oposto.

Para o leitor brasileiro, há um paralelo claro. A reforma trabalhista de 2017 foi aprovada porque Michel Temer tinha votos suficientes no Congresso. Em Portugal, Montenegro descobriu que uma maioria numérica de partidos à direita não forma automaticamente uma maioria política. O Chega não é um aliado estável. É um concorrente que avalia, em cada votação, se ganha mais apoiando ou bloqueando.

Na prática, nada muda por enquanto. A reforma foi chumbada e as regras atuais continuam valendo. Mas o tema voltará. O verdadeiro resultado foi mostrar que qualquer reforma econômica importante dependerá de um partido que pode lucrar mais impedindo o governo de governar do que ajudando-o.

Hoje, em Portugal, a esquerda venceu a votação. Mas o Chega venceu a narrativa. E Montenegro descobriu que ter maioria no papel é muito diferente de ter a maioria dos votos no plenário.

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