Luiz Carlos Bordoni
Toda vez que um escândalo bancário surge no Brasil, a reação é a mesma. Especialistas aparecem na televisão. Autoridades prometem rigor. Executivos falam em surpresa. Advogados falam em presunção de inocência. E o cidadão comum faz uma pergunta singela: como ninguém viu isso antes?
A Operação Miragem, da Polícia Federal, que investiga supostas fraudes envolvendo o Banco Digimais, recolocou essa velha dúvida sobre a mesa. Não é a primeira vez e, talvez, o mais preocupante seja justamente isso: a história parece se repetir.
O Brasil já viu o Banco Nacional esconder prejuízos em contas fictícias. Já viu o Bamerindus, considerado uma fortaleza financeira, ruir diante dos olhos do mercado. Já viu o Banco Santos desmoronar em meio a operações sofisticadas e problemas de liquidez. Já viu o PanAmericano apresentar um rombo bilionário. Já viu o Cruzeiro do Sul entrar em colapso. O Halles, o Marka, o Cindam, o Econômico.
Agora vê o Master. Agora vê o Digimais. Mudam os personagens, mudam as tecnologias, mudam os nomes dos produtos financeiros, mas a pergunta permanece: onde estavam os mecanismos de controle?
É evidente que o sistema financeiro brasileiro é hoje muito mais sólido do que era nos anos 90. O Banco Central possui equipes altamente qualificadas. As regras de capitalização são rigorosas. As auditorias são mais sofisticadas.
Existem o Fundo Garantidor de Créditos, o monitoramento eletrônico, a inteligência artificial e a supervisão permanente. Mas existe também um fato impossível de ignorar: os problemas continuam aparecendo.
O detalhe é que quase sempre aparecem tarde, quando os relatórios já foram publicados, os balanços já foram aprovados. Quando os investidores já aplicaram recursos. Quando os riscos já se espalharam pelo mercado.
A questão talvez não seja falta de fiscalização. Talvez seja velocidade. A inovação financeira passou a correr mais rápido que os órgãos de controle.
Nos anos 90, o problema era esconder empréstimos ruins. Hoje, existem FIDCs, securitização, ativos judiciais, derivativos, precatórios, créditos estruturados e uma infinidade de operações cuja compreensão exige especialistas altamente qualificados.
O banco deixou de ser apenas um banco. Transformou-se numa engenharia financeira complexa e, quanto mais complexa a estrutura, mais difícil identificar o defeito.
Existe ainda outro componente. O político. Em praticamente todos os grandes escândalos financeiros brasileiros aparecem, mais cedo ou mais tarde, conexões com o poder. Não necessariamente crimes, não necessariamente condenações, mas proximidades, relacionamentos, influências, interesses.
O dinheiro sempre procura o poder e este raramente resiste à atração do dinheiro. Por isso os casos recentes despertam tanta atenção. Não se trata apenas de balanços. Não se trata apenas de bancos. Trata-se de confiança.
A confiança é o combustível invisível que move o sistema financeiro. Sem ela, o crédito encolhe, os investimentos diminuem, a economia desacelera, o país inteiro perde.
Talvez a grande lição do Master e do Digimais não esteja nas investigações que ainda serão concluídas pela Justiça. Talvez a lição esteja na pergunta que continua sem resposta: depois de tantas crises, tantos escândalos, tantas intervenções e tantas promessas de aperfeiçoamento, por que ainda somos surpreendidos?
Enquanto essa resposta não aparecer, a próxima operação policial já estará sendo preparada e o próximo escândalo talvez esteja apenas esperando a hora de sair do balanço e entrar nas manchetes.



