Luiz Carlos Bordoni As maiores dificuldades de uma campanha nem sempre vêm dos adversários. Às vezes surgem dentro de casa. Foi exatamente essa a imagem transmitida pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro ao divulgar um vídeo de mais de 26 minutos, relatando o rompimento político e pessoal com o senador Flávio Bolsonaro. Ela disse ter levado uma "punhalada", revelou ter sido tratada com rispidez pelo enteado e afirmou que ouviu dele que deveria permanecer fora das decisões partidárias porque "chegou ontem" e "não entende de política".
O motivo imediato foi a estratégia eleitoral do PL no Ceará. Michelle rejeita qualquer composição de primeiro turno envolvendo Ciro Gomes, a quem responsabiliza por episódios que contribuíram para a inelegibilidade de Jair Bolsonaro. Flávio, por sua vez, preferiu uma construção política diferente, baseada em alianças estaduais. A divergência, que poderia permanecer nos bastidores, acabou transformando-se em crise familiar exposta ao país.
Mais importante que o Ceará, porém, é o simbolismo da ruptura. Michelle não é uma militante qualquer. Ela se transformou, ao longo dos últimos anos, em uma das figuras mais influentes do campo conservador, especialmente entre mulheres, evangélicos e eleitores moderados. Seu prestígio político passou a ter vida própria.
Quando uma liderança com esse peso afirma publicamente que foi humilhada, maltratada e decidiu se recolher, o impacto naturalmente ultrapassa a esfera familiar.
É verdade que Michelle fez questão de dizer que continua desejando sucesso à candidatura de Flávio e que não pretende disputar a Presidência. Também afirmou ter perdoado o enteado, mas fez uma distinção importante: perdoar não significa manter a mesma relação.
Na prática, a mensagem política parece clara. Ela não rompeu com o projeto bolsonarista, mas interrompeu a convivência política com aquele que hoje representa esse projeto na disputa presidencial.
Toda campanha precisa ampliar apoios. Perder aliados relevantes costuma ser mais preocupante do que enfrentar adversários tradicionais.
Ainda é cedo para medir o tamanho do dano eleitoral. O bolsonarismo sempre demonstrou capacidade de superar crises internas quando existe um objetivo comum. Mas, desta vez, o desgaste ocorreu envolvendo justamente duas das principais lideranças do grupo.
Na política, a unidade é um ativo precioso. Quando ela se rompe dentro da própria família, a reconstrução costuma ser muito mais difícil do que parece.
Se vai haver reconciliação, ninguém sabe. O que já se sabe é que uma divergência regional acabou revelando uma fissura nacional dentro do principal grupo da oposição brasileira e isso dificilmente passará despercebido durante a campanha de 2026.


