O pré-candidato ao Governo do Ceará, Ciro Gomes (PSDB), evitou entrar na disputa pública envolvendo a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro sobre os rumos do Partido Liberal (PL) no Estado. Questionado sobre os vídeos divulgados por Michelle, nos quais ela relata ter sido “humilhada” pelo enteado em razão da aliança entre o PL cearense e sua candidatura, Ciro afirmou que sequer assistiu ao conteúdo e que não pretende fazê-lo. Informações do G1.
Segundo o ex-ministro, trata-se de uma questão interna do PL nacional, envolvendo temas que extrapolam a realidade política cearense. “Não vi o vídeo e nem vou ver. É uma questão do PL nacional e envolve coisas muito mais complexas do que a nossa paróquia aqui”, afirmou. Ciro acrescentou que permanece concentrado em seu projeto para o Ceará, defendendo a construção de uma alternativa ao governo estadual.
A crise teve início após Michelle Bolsonaro tornar público um desentendimento com Flávio Bolsonaro, revelando que os dois não mantêm diálogo desde o fim de 2025. O conflito surgiu em meio às discussões sobre a estratégia eleitoral do PL no Ceará, especialmente após o diretório estadual, comandado pelo deputado federal André Fernandes, decidir apoiar a pré-candidatura de Ciro Gomes ao Palácio da Abolição.
Nos vídeos publicados nas redes sociais, Michelle afirmou que foi desencorajada a participar das decisões partidárias e que Flávio teria dito que ela “havia chegado ontem e não entendia nada de política”. A ex-primeira-dama classificou a conversa como humilhante e afirmou que, desde então, decidiu se afastar das articulações internas do partido.
A discordância, porém, vai além da relação pessoal entre Michelle e Flávio. Ela representa uma divisão sobre a estratégia da direita no Ceará. Michelle defende que o PL mantenha candidatura própria ou apoie o senador Eduardo Girão (Novo), nome identificado com o bolsonarismo, deixando uma eventual composição com Ciro Gomes apenas para um possível segundo turno. Na avaliação da ex-primeira-dama, uma aliança antecipada com o ex-ministro compromete a coerência política do grupo, já que Ciro foi um dos mais duros críticos de Jair Bolsonaro e de seus filhos nos últimos anos.
Michelle também voltou a defender que a vaga do PL ao Senado seja destinada à deputada federal Priscila Costa, afirmando que essa teria sido uma decisão previamente acordada com Jair Bolsonaro. Ela criticou a articulação de André Fernandes para lançar seu pai, o deputado estadual Alcides Fernandes, como candidato ao Senado, chegando a questionar por que apenas a candidatura de Priscila deveria ser sacrificada em nome da aliança.
As declarações provocaram reações dentro da própria família Bolsonaro e do PL. Flávio Bolsonaro afirmou que Michelle teria interferido em uma articulação autorizada pelo ex-presidente. Os irmãos Carlos Bolsonaro e Jair Renan Bolsonaro também criticaram a postura da ex-primeira-dama, enquanto Eduardo Bolsonaro saiu em defesa de André Fernandes, afirmando que o dirigente estadual foi injustamente exposto.
No Ceará, lideranças do PL igualmente respaldaram a decisão do diretório estadual. Alcides Fernandes afirmou que Ciro Gomes representa a principal alternativa da oposição ao atual governador Elmano de Freitas (PT), enquanto parlamentares do partido defenderam que Jair Bolsonaro havia delegado a André Fernandes autonomia para conduzir as negociações políticas no Estado.
A aproximação entre Ciro Gomes e o PL cearense começou após as eleições municipais de 2024, quando André Fernandes disputou o segundo turno da Prefeitura de Fortaleza e recebeu apoio de aliados históricos do ex-ministro. Ao longo de 2025, as conversas evoluíram para a formação de uma frente de oposição ao PT no Estado. Embora as críticas de Michelle tenham provocado a suspensão temporária das negociações, o impasse foi superado e, em maio de 2026, o PL oficializou apoio à candidatura de Ciro ao Governo do Ceará.
O episódio expõe uma disputa que vai além da política cearense. De um lado, lideranças locais defendem uma estratégia pragmática, baseada na união das forças de oposição para enfrentar o PT. De outro, Michelle Bolsonaro sustenta que alianças com antigos adversários do bolsonarismo comprometem a identidade política do grupo e só deveriam ocorrer em um eventual segundo turno. A controvérsia também revela a disputa por influência dentro do PL e do próprio campo conservador, envolvendo a definição de candidaturas majoritárias e o papel da família Bolsonaro nas decisões partidárias para as eleições de 2026.

