Brasília, 04/07/2026

A guerra das telas e a moeda que não muda: credibilidade

Luiz Carlos Bordoni

Durante décadas, medir o sucesso de um canal de televisão era simples. Bastava olhar a audiência. Quem tinha mais telespectadores, liderava. Hoje, esse critério já não basta. O jornalismo entrou definitivamente na era multiplataforma e a disputa passou a acontecer simultaneamente na televisão por assinatura, nos sites, no YouTube, nas redes sociais, nos aplicativos e nas chamadas TVs conectadas.

Na TV paga, os números continuam mostrando uma liderança confortável da GloboNews. CNN Brasil, Jovem Pan News, Record News e BandNews aparecem em um segundo bloco, enquanto o SBT News inicia sua caminhada apoiado em investimentos elevados e na contratação de jornalistas consagrados.

Mas a fotografia muda completamente quando a internet entra na conta.

A CNN Brasil construiu uma estratégia baseada na distribuição do conteúdo em praticamente todas as plataformas disponíveis. Seu argumento é simples: a notícia precisa estar onde o público está. A emissora fala em dezenas de milhões de brasileiros alcançados mensalmente por seus diversos canais de distribuição. É uma lógica diferente da audiência tradicional. O conceito deixa de ser apenas “quem está assistindo agora” para incorporar “quantas pessoas foram impactadas”.

A GloboNews segue outro caminho. Integrada ao maior grupo de comunicação do país, beneficia-se da força conjunta da TV Globo, do g1, do Globoplay e das rádios do grupo. Em grandes acontecimentos nacionais — eleições, julgamentos, crises políticas ou internacionais — sua cobertura costuma concentrar grandes audiências e reforçar sua posição no jornalismo brasileiro.

Enquanto isso, o SBT News tenta ocupar um espaço importante ao reunir profissionais experientes e aproveitar a tradição do SBT na televisão aberta. Já Jovem Pan News, Record News e BandNews buscam consolidar públicos específicos, apostando em nichos e identidades editoriais próprias.

Toda essa movimentação revela uma mudança profunda no mercado.

As emissoras já não disputam apenas telespectadores. Disputam anunciantes, influência, relevância, presença digital e capacidade de produzir conteúdo capaz de circular durante horas nas redes sociais. Um programa deixa de existir apenas enquanto está no ar. Hoje ele continua vivo em cortes, compartilhamentos, comentários, podcasts e vídeos curtos.

Existe, porém, uma armadilha nessa nova realidade.

Alcance não significa necessariamente influência. Influência não garante confiança  e audiência, sozinha, também não certifica qualidade.

A velocidade da internet tornou a informação abundante, mas também ampliou a circulação de erros, exageros e conteúdos produzidos apenas para gerar cliques. Nunca foi tão fácil publicar uma notícia. Nunca foi tão difícil convencer o público de que ela merece ser acreditada.

É justamente nesse ponto que surge o patrimônio mais valioso de qualquer veículo de comunicação: a credibilidade.

Ela não aparece em gráficos diários, não pode ser comprada com investimentos milionários e não nasce da quantidade de seguidores. É construída lentamente, reportagem após reportagem, acerto após acerto, reconhecimento após reconhecimento. Pode levar décadas para ser conquistada e poucos minutos para ser destruída.

A tecnologia continuará mudando. Novas plataformas surgirão. A inteligência artificial transformará ainda mais a produção e a distribuição de notícias. Os hábitos do público continuarão evoluindo.

Mas existe uma regra que permanece imutável desde os tempos dos antigos jornais impressos, atravessou o rádio, chegou à televisão e sobrevive agora ao universo digital: o jornalismo pode até conquistar audiência sem credibilidade. O que não consegue é sobreviver por muito tempo sem ela.

No fim das contas, as pesquisas apontam quem lidera a audiência. Os algoritmos mostram quem alcança mais pessoas. Mas será sempre o público que decidirá em quem confiar.

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