Euler de França Belém, Jornal Opção
Livro de Karla Monteiro mostra que a ligação entre Brizola e Fidel Castro começou bem mais cedo do que se pensava — já em 1964, antes do golpe de Estado que derrubou João Goulart
Leonel Brizola (1922-2004) é um dos maiores políticos brasileiros e parecia talhado a ser presidente da República. Governador do Rio Grande e do Rio de Janeiro, era tido como gestor eficiente.
Por que Brizola não conseguiu ser presidente? Porque a esquerda é como Saturno: devora os próprios filhos. No caso brasileiro, foi um dos filhos que devorou o pai. Lula da Silva “matou” Leonel Brizola politicamente.

Porém, o fato de não ter sido presidente não resulta que não tenha sido bem-sucedido. Ele teve uma longeva carreira política e com forte presença nacional — como poucos outros políticos.
Brizola “pediu 500 mil dólares (cerca de US$ 5,3 milhões hoje, ou 26,5 milhões de reais) para o seu movimento. Solicitei imediatamente viajar a Cuba para falar pessoalmente com o primeiro-ministro”. A solicitação foi feita ao embaixador cubano em 1964
Há quem acredite que a ditadura barrou sua ascensão a presidente. Só em parte, talvez. O mais provável é que Lula da Silva tenha ocupado o espaço como principal figura da esquerda. Sobrou para Brizola o segundo lugar — o que sempre lhe incomodou. Havia uma relação de “amor” e “distanciamento” entre os dois.
O líder gaúcho que acariocou-se ganha agora uma biografia alentada, “Brizola — Lobisomem Contra o Império” (Companhia das Letras, 456 páginas), da jornalista e pesquisadora Karla Monteiro. Trata-se do primeiro volume. “O lobisomem do título do livro é referência à alcunha dada ao político por conta do programa que comandava na Rádio Farroupilha”, diz Eduardo Graça, em “O Globo”).
O dinheiro dos cubanos
Já se sabia que, durante a ditadura, Fidel Castro, o líder de Cuba, enviou cerca de 1 milhão de dólares para Brizola organizar a luta contra os militares no Brasil. Há livros que registram a história. Um deles é “O Tenente Vermelho”, do capitão do Exército José Wilson, que o Jornal Opção entrevistou há alguns anos (https://tinyurl.com/259cs775), no Hotel Aracoara, em Brasília. (José Wilson foi assassinado, em 2021, com quase 90 anos.)

Circulou o boato, porque informação não é, de que Brizola ficou com parte do dinheiro para si. Não há nenhuma prova disso. O dinheiro foi usado para financiar revolucionários que não conseguiram organizar a guerrilha e tiveram de ser mantidos no exílio uruguaio.
Fidel Castro teria chamado Brizola de “El Ratón”? Tudo indica que não. Mas, se o fez, deve recebido informações falsas de membros da esquerda radicalizada, que passaram a não aprovar a moderação de Brizola.
O que se não sabia e o livro de Karla Monteiro revela é que Fidel Castro planejou enviar dinheiro para Brizola organizar a resistência ao golpe militar. Aliança de esquerda queria evitar o golpe.
Seguindo orientação de Almino Affonso (ministro do Trabalho do governo de João Goulart), Karla Monteiro ouviu o diplomata cubano Raúl Roa Khoury, que havia sido embaixador de Cuba no Brasil.

Brizola perguntou a Raúl Roa se, no caso golpe de Estado, Cuba o ajudaria a tentar manter a legalidade democrática.
O líder gaúcho “pediu 500 mil dólares (cerca de US$ 5,3 milhões hoje, ou 26,5 milhões de reais) para o seu movimento. Solicitei imediatamente viajar a Cuba para falar pessoalmente com o primeiro-ministro” (menciono trecho colhido por Eduardo Graça, de “O Globo”). A solicitação foi feita em 1964.
Racional e frio, Fidel Castro disse, na época: “Ou bem ele tem tudo amarrado com militares, dirigentes sindicais e políticos, ou Goulart não dura mais um mês no poder”. Presciente, o ditador.
Ainda assim, Fidel Castro autorizou o envio de 250 mil dólares. Mais: sugeriu que Che Guevara deveria liderar, in loco, a resistência ao golpismo de militares e civis.

Che Guevara, um exportador de revoluções, informou que estava disposto a lutar no Brasil.
Raulito Roa disse que, como os militares foram mais rápidos e derrubaram Jango Goulart, não houve tempo para o repasse do dinheiro.
“Se Roa tivesse voltado ao Brasil a tempo, Che poderia ter vindo organizar a resistência com Brizola e morrido aqui. Ou não. De qualquer forma, teria mudado a história da América Latina”, assinala Karla Monteiro.
Enviado para organizar a guerrilha na Bolívia, Che Guevara foi assassinado pouco depois, em 1967 (confira a história da morte do argentino que se radicou em Cuba: https://tinyurl.com/ystrd84r). Uma militante argentina vingou-se de um militar boliviano, matando-o ( https://tinyurl.com/3rre2kub ).

