247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou seu compromisso com o fim da escala de trabalho 6×1 e com a redução da jornada semanal no Brasil. Ao defender a mudança, Lula classificou o atual regime, que permite seis dias de trabalho para apenas um de descanso, como uma “jornada escrava de trabalho”.
Lula recorreu à própria trajetória como operário e dirigente sindical para defender a necessidade de atualizar as relações de trabalho no país. Segundo o presidente, a redução da jornada representa não apenas uma conquista trabalhista, mas também uma mudança com impacto direto na qualidade de vida de milhões de brasileiros.
A proposta em discussão reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, assegura dois dias de descanso remunerado e impede a redução dos salários. A matéria avançou na Câmara dos Deputados há três meses e agora está em fase de análise no Senado.
Redução gradual até 40 horas
Pelo texto aprovado na Câmara, a transição será feita de forma gradual. A jornada máxima cairá inicialmente para 42 horas semanais, dois meses depois da promulgação da mudança. Um ano depois, chegará às 40 horas.
A medida poderá alterar a rotina de milhões de trabalhadores brasileiros, ampliando o tempo disponível para descanso, convivência familiar, estudos, lazer e cuidados pessoais.
Lula destacou especialmente o impacto da mudança para as mulheres, que frequentemente acumulam o emprego remunerado com uma segunda jornada de trabalho dentro de casa, envolvendo cuidados com os filhos, idosos e tarefas domésticas.
Para o presidente, uma economia mais produtiva e tecnologicamente avançada deve permitir que os ganhos de produtividade sejam compartilhados também na forma de mais tempo livre para os trabalhadores.
Aliados de Flávio Bolsonaro tentam impedir avanço da mudança
Enquanto Lula pressiona pela aprovação da redução da jornada, aliados do candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, articulam no Senado iniciativas que podem retardar ou modificar a proposta.
Entre as estratégias estão pedidos de vista e a apresentação de emendas capazes de prolongar a discussão e empurrar uma decisão definitiva para depois das eleições.
O senador Hermes Klan apresentou emendas que buscam ampliar o período de transição para a jornada de 40 horas, que poderia chegar a quatro anos, além de permitir a manutenção de regimes de até 44 horas semanais por meio de lei, convenção ou acordo coletivo.
As alterações, caso prosperem, modificariam pontos centrais da proposta aprovada pela Câmara e poderiam reduzir o alcance imediato da mudança.
Flávio defende possibilidade de trabalhar mais horas
Flávio Bolsonaro já manifestou uma posição distinta da defendida por Lula sobre a duração da jornada de trabalho.
O candidato do PL afirmou publicamente que trabalhadores deveriam poder ampliar suas horas de trabalho caso desejassem aumentar sua renda.
“Se quiser trabalhar mais horas, vai trabalhar também e vai ganhar mais”, afirmou Flávio Bolsonaro.
A declaração explicita uma diferença entre os projetos apresentados ao eleitorado no debate trabalhista. Enquanto Lula coloca a redução da jornada e a ampliação do tempo livre entre suas prioridades sociais, Flávio Bolsonaro defende maior flexibilidade para que o trabalhador possa trabalhar mais horas.
Proposta ficou parada durante governo Bolsonaro
A discussão sobre a redução da jornada não começou agora. A proposta foi apresentada em 2019 pelo deputado Reginaldo Lopes, mas permaneceu sem avanço significativo durante o governo de Jair Bolsonaro.
Em 2023, a matéria também enfrentou resistência e chegou a ser retirada de pauta após pedidos de parlamentares do próprio partido de Bolsonaro.
O cenário começou a mudar com a mobilização de movimentos sociais, centrais sindicais e setores da sociedade civil em defesa do fim da escala 6×1.
Em 2026, o apoio direto de Lula deu novo impulso político à pauta. A proposta avançou na Câmara com mais de 470 votos favoráveis, demonstrando apoio expressivo entre os deputados.
Apoio popular chega a 73%
A defesa do fim da escala 6×1 também encontra respaldo majoritário na sociedade. Levantamento citado no debate sobre a proposta aponta que 73% dos brasileiros apoiam o fim desse regime de trabalho sem redução salarial.
Para Lula, a questão recupera uma das bandeiras históricas do movimento sindical brasileiro: transformar os avanços econômicos e tecnológicos em melhores condições de vida para quem trabalha.
Ao assumir o compromisso de trabalhar pela aprovação definitiva da medida, o presidente também coloca a jornada de trabalho no centro do debate político e eleitoral de 2026.
De um lado, Lula defende a redução da semana para 40 horas, a preservação integral dos salários e dois dias de descanso. Do outro, Flávio Bolsonaro defende a possibilidade de trabalhar mais horas, enquanto seus aliados no Senado apresentam iniciativas que podem retardar ou alterar a mudança.
A votação no Senado será, portanto, decisiva para definir se uma das maiores mudanças nas relações de trabalho das últimas décadas entrará definitivamente na legislação brasileira.
