Brasília, 28/08/2026

Quando o progresso muda de mãos

Luiz Carlos Bordoni

A tecnologia é uma das mais extraordinárias demonstrações da inteligência humana. Encurtou distâncias, venceu doenças, multiplicou a produção, democratizou conhecimentos e colocou nas mãos do homem instrumentos que nossos avós talvez imaginassem apenas nos livros de ficção científica.

Mas há uma velha verdade acompanhando cada conquista da humanidade: quase tudo aquilo que o homem inventa para construir pode ser adaptado para destruir.

A mesma química que produz medicamentos fabrica venenos. A mesma energia que ilumina cidades pode alimentar armas devastadoras. A internet que aproximou continentes também abriu espaço para golpes, invasões, extorsões e organizações criminosas transnacionais.

Agora estamos diante de mais um capítulo dessa história. Uma impressora 3D, criada para transformar projetos digitais em objetos físicos e hoje utilizada na medicina, na engenharia, na indústria e na educação, também pode ser apropriada pelo crime para produzir componentes de armas. É uma mudança inquietante.

Durante décadas, combater o tráfico de armas significava principalmente vigiar fronteiras, portos, aeroportos, estradas e depósitos clandestinos. A fabricação digital introduz outra dificuldade: parte da arma pode começar a nascer perto do próprio lugar onde será utilizada. A tecnologia altera, portanto, não apenas os instrumentos do crime. Altera a própria logística criminosa.

E temos os drones. Eles nasceram como extraordinárias ferramentas civis. Filmam lavouras, acompanham plantações, auxiliam levantamentos topográficos, fazem imagens jornalísticas, ajudam em buscas e salvamentos, inspecionam redes elétricas e chegam a regiões às quais o homem teria dificuldade de acesso.

Nas mãos do crime organizado, entretanto, ganharam outra finalidade. No Rio de Janeiro, organizações criminosas já os utilizam para observar a movimentação policial, acompanhar grupos rivais e lançar explosivos. O que antes exigia a presença física de um criminoso pode agora ser realizado a distância. É a tecnologia reduzindo o risco para o agressor e aumentando o risco para a vítima.

Há algo ainda mais grave nisso. Estamos assistindo à aproximação entre a criminalidade urbana e métodos próprios de conflitos armados. Técnicas vistas em guerras do outro lado do mundo começam a aparecer nas disputas territoriais das organizações criminosas brasileiras. O criminoso acompanha vídeos, aprende técnicas, troca informações e adapta equipamentos disponíveis comercialmente.

O conhecimento também se globalizou e o mal aprendeu a navegar pela globalização. Não se trata, evidentemente, de condenar impressoras 3D, drones, inteligência artificial ou qualquer outra inovação. Seria tão absurdo quanto responsabilizar o automóvel pelos atropelamentos ou o telefone pelos golpes praticados através dele. Tecnologia não possui caráter. Quem possui caráter, ou não, é quem a utiliza.

O desafio colocado diante do Estado é outro: as instituições de segurança não podem combater o crime tecnológico apenas com métodos do século passado.

Se o bandido dispõe de drones, inteligência digital, comunicações criptografadas, impressão 3D e capacidade financeira para comprar equipamentos sofisticados, polícia, inteligência, legislação e sistema de Justiça precisam acompanhar essa transformação.

O crime organizado deixou de ser apenas o homem armado na esquina. Ele administra dinheiro, domina territórios, movimenta empresas, dispõe de especialistas, utiliza tecnologia e aprende rapidamente.

Talvez esta seja a grande advertência do nosso tempo. Durante muitos anos tivemos medo de que as máquinas se tornassem perigosas demais para os homens. O perigo maior continua sendo outro. É o homem descobrir, antes das autoridades, como transformar cada nova máquina em arma.

A ciência continuará avançando. E deve avançar. Virão drones mais poderosos, robôs, inteligência artificial cada vez mais sofisticada, impressoras capazes de trabalhar novos materiais e tecnologias que hoje sequer conseguimos imaginar. Não podemos impedir o futuro por medo do crime. Precisamos impedir que o crime chegue ao futuro antes do Estado, porque o progresso é uma conquista extraordinária da humanidade. Mas, quando muda de mãos, aquilo que foi criado para melhorar a vida pode também aprender a matar.

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