A planta ora-pro-nóbis não pode ser utilizada como ingrediente de suplementos alimentares no Brasil desde abril de 2025. A proibição foi determinada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que apontou a ausência de evidências suficientes para comprovar a segurança do consumo da planta em cápsulas, comprimidos e outras apresentações concentradas. Apesar da restrição, empresas continuam oferecendo cápsulas pela internet, muitas vezes acompanhadas de promessas de benefícios quase “milagrosos” para a saúde.
A medida não alcança as folhas usadas tradicionalmente na culinária. Conhecida cientificamente como Pereskia aculeata, a ora-pro-nóbis é uma hortaliça nutritiva, rica em fibras e capaz de complementar a alimentação. O problema começa quando um alimento comum é transformado em suposto medicamento contra diabetes, colesterol elevado, anemia, obesidade e outras doenças.
Apesar da decisão da Anvisa, cápsulas de ora-pro-nóbis continuam sendo anunciadas em sites, plataformas de comércio eletrônico e redes sociais, algumas acompanhadas de promessas terapêuticas não confirmadas por estudos clínicos. A permanência dos anúncios na internet não significa que os produtos estejam autorizados.
Em fevereiro de 2026, a Anvisa determinou a apreensão e proibiu a comercialização, distribuição, fabricação, importação, propaganda e uso de diferentes produtos de ora-pro-nóbis vendidos sem registro, notificação ou cadastro. A lista incluiu cápsulas e apresentações líquidas de diversas marcas. Em julho, a agência também adotou medidas contra outros produtos irregulares que utilizavam o nome da planta.
A proibição dos suplementos não significa que a ora-pro-nóbis seja venenosa ou que deva desaparecer da cozinha. A Anvisa diferencia o consumo tradicional das folhas como hortaliça do uso concentrado e continuado em cápsulas, extratos ou produtos vendidos com finalidade terapêutica.
Popular principalmente na culinária mineira, a ora-pro-nóbis pertence à família dos cactos e também é conhecida como lobrobó. Suas folhas podem ser preparadas em refogados, sopas, omeletes, feijão, angu e pratos com carnes. A Embrapa a classifica como planta alimentícia não convencional, grupo conhecido pela sigla PANC, e destaca sua rusticidade, facilidade de cultivo e importância para a agricultura familiar.
A fama de “carne dos pobres” surgiu devido à concentração de proteína encontrada nas folhas desidratadas. Estudos mencionam percentuais próximos de 20% ou até superiores na matéria seca. Essa informação, entretanto, costuma ser retirada do contexto e utilizada para vender a ideia de que a planta poderia substituir carnes e outras fontes importantes de proteína.
A folha fresca contém grande quantidade de água. Pesquisa publicada em 2020 na revista Food Science and Technology calculou que uma porção de 90 gramas de ora-pro-nóbis fresca fornece aproximadamente 1,93 grama de proteína e 2,54 gramas de fibras. É uma contribuição nutricional válida, mas insuficiente para substituir carne, ovos, leite, feijão ou outras fontes proteicas. O estudo está disponível na base SciELO.
A diferença entre a folha fresca e a farinha ajuda a explicar a confusão. Quando a água é retirada, proteínas, fibras e minerais ficam concentrados. Em trabalho publicado nos Cadernos de Ciência & Tecnologia, pesquisadores encontraram 11,9% de proteína e 31,37% de fibra bruta na farinha produzida com a planta.
O estudo, reproduzido no portal da Embrapa, avaliou a utilização da farinha em biscoitos e concluiu que sua adição aumentava a quantidade de proteínas, fibras e minerais dos produtos. A pesquisa analisou o valor nutricional do ingrediente, e não sua capacidade de prevenir ou curar doenças. O trabalho pode ser consultado aqui.
As folhas também possuem carotenoides, compostos fenólicos, minerais e mucilagem — substância responsável pela textura viscosa observada quando a planta é cortada. Esses componentes despertaram o interesse de pesquisadores por suas possíveis propriedades antioxidantes, digestivas e tecnológicas na produção de alimentos.
A presença de compostos antioxidantes, porém, não significa que o consumo da planta seja capaz de prevenir câncer ou tratar inflamações no organismo humano. Grande parte dos resultados divulgados sobre a ora-pro-nóbis veio de experiências realizadas em laboratórios ou com animais.
Essas pesquisas são importantes para identificar substâncias e orientar novos trabalhos, mas não podem ser apresentadas como prova de eficácia médica. Um resultado positivo em células ou animais não garante que o mesmo efeito ocorrerá em seres humanos, nas doses vendidas em cápsulas.
Os estudos clínicos com pessoas ainda são poucos, envolveram grupos reduzidos e tiveram curta duração. Em 2019, um ensaio com homens acima do peso avaliou um alimento preparado com farinha de ora-pro-nóbis. Os participantes relataram melhora de sintomas gastrointestinais e aumento da saciedade.
O trabalho não demonstrou mudanças relevantes nos indicadores antropométricos e bioquímicos que permitissem recomendar a planta como tratamento para glicemia elevada, colesterol ou obesidade. O estudo foi publicado no Journal of Food Biochemistry.
Outro ensaio, publicado em 2020 na revista Nutrition, acompanhou somente 24 mulheres durante seis semanas. As participantes que receberam uma bebida com farinha de ora-pro-nóbis apresentaram melhora da constipação, da consistência das fezes e da saciedade, além de alterações em peso e composição corporal.
Embora os resultados sejam promissores, o número reduzido de participantes e o período curto de acompanhamento impedem conclusões definitivas sobre emagrecimento ou prevenção da obesidade. Os resultados também não autorizam a generalização para cápsulas com concentrações e procedências diferentes. A pesquisa está registrada na base PubMed.
Uma revisão científica publicada em 2023 reuniu estudos sobre a composição e as possíveis aplicações da Pereskia aculeata. Os autores reconheceram seu valor nutricional e o potencial da planta como ingrediente alimentar, mas destacaram a necessidade de ampliar as pesquisas, especialmente os ensaios clínicos com seres humanos. A revisão foi publicada na revista científica Foods.
Não existe comprovação sólida de que a ora-pro-nóbis controle o diabetes. As fibras presentes nas folhas podem fazer parte de uma alimentação equilibrada e contribuir para tornar mais lenta a absorção dos carboidratos da refeição. Isso é diferente de produzir um efeito comparável ao de um medicamento.
A planta não substitui insulina, metformina ou qualquer tratamento prescrito. A troca de medicamentos por cápsulas ou extratos pode descontrolar a glicemia e aumentar o risco de complicações, especialmente quando o paciente deixa de acompanhar os níveis de açúcar no sangue.
Também não está demonstrado que a ora-pro-nóbis reduza o colesterol de forma clinicamente relevante. Resultados positivos observados em animais não comprovam o mesmo benefício em pessoas. Para sustentar essa alegação seriam necessários estudos maiores, com grupos de comparação, doses padronizadas e acompanhamento por períodos prolongados.
A afirmação de que a planta cura anemia exige cautela semelhante. A ora-pro-nóbis contém ferro e outros minerais, mas as concentrações podem variar conforme o solo, a espécie, o cultivo e o processamento. Além disso, determinados compostos naturais dos vegetais podem dificultar a absorção de parte dos minerais.
A anemia possui diferentes causas e precisa ser investigada. A ingestão de folhas ou cápsulas não substitui exames, diagnóstico médico nem a reposição de ferro quando ela for necessária.
As promessas de prevenção do câncer, fortalecimento da imunidade, melhora da circulação ou tratamento de inflamações também não encontram respaldo em ensaios clínicos robustos. Nesses casos, a publicidade costuma transformar possibilidades observadas em laboratório em benefícios que ainda não foram demonstrados em seres humanos.
Outro problema está na procedência dos produtos. Em suplementos irregulares, o consumidor pode não saber qual espécie vegetal foi utilizada, a quantidade presente em cada cápsula, a origem da matéria-prima ou as condições de fabricação.
Também podem existir contaminação, adulteração ou inclusão de substâncias não declaradas no rótulo. Expressões como “produto natural”, “auxilia no tratamento” e “tradicionalmente utilizado” não garantem que o conteúdo tenha sido analisado ou autorizado pela Anvisa.
A agência explicou, ao anunciar a proibição em abril de 2025, que a decisão não afeta o consumo da planta in natura. O uso da ora-pro-nóbis como ingrediente culinário permanece permitido nas formas tradicionalmente utilizadas. A explicação está disponível no comunicado da Anvisa.
Em 2026, a Anvisa reiterou que o reconhecimento do uso tradicional da Pereskia aculeata não elimina a necessidade de avaliação quando a planta é transformada em suplemento. Produtos destinados a uma ingestão concentrada, diária e prolongada não podem ser equiparados automaticamente a uma porção de folhas servida durante uma refeição.
Na cozinha, folhas corretamente identificadas, higienizadas e preparadas como hortaliça podem fazer parte do cardápio. O cozimento ou refogado é uma das formas tradicionais de consumo e pode reduzir alguns fatores antinutricionais encontrados naturalmente nos vegetais.
A conclusão oferecida pelas pesquisas é menos espetacular que a publicidade, mas mais segura: a ora-pro-nóbis é um alimento de interesse nutricional, especialmente como fonte complementar de fibras e outros nutrientes. Seu uso na culinária e no desenvolvimento de alimentos merece ser estudado e valorizado.
O que a ciência não respalda é sua apresentação como medicamento para diferentes doenças. Entre a folha colocada no prato e a cápsula vendida como tratamento existe uma diferença fundamental: a primeira pertence à tradição alimentar brasileira; a segunda reúne concentrações e promessas que, até agora, não tiveram segurança e eficácia suficientemente comprovadas.


