A entrevista de Augusto Cury à TV Globo revelou um candidato capaz de formular diagnósticos de forte apelo emocional, mas ainda com dificuldades para transformar suas ideias em políticas públicas detalhadas. O escritor e psiquiatra, candidato à Presidência pelo Avante, levou para a política o estilo que o tornou conhecido nos livros: frases de efeito, advertências sobre ansiedade e críticas a uma sociedade emocionalmente doente.
Cury falou sobre polarização, feminicídio, juventude sem esperança e o que chama de “intoxicação digital”. São temas relevantes e que alcançam diretamente milhões de famílias. Ao afirmar que as redes sociais prejudicam pré-adolescentes e jovens, ele tocou em um problema reconhecido por pesquisadores, educadores e autoridades de saúde em diferentes países.
O candidato também demonstrou preocupação com a ansiedade e a perda da capacidade de diálogo. Seu discurso contra a radicalização política encontrou um espaço legítimo numa campanha dominada pelos conflitos entre os grupos ligados a Lula e Bolsonaro. O problema é que o diagnóstico psicológico da sociedade, por mais atraente que pareça, não substitui respostas concretas sobre economia, administração pública e financiamento das promessas eleitorais.
Ao tratar do funcionalismo, Cury defendeu a digitalização da máquina pública e a adoção da inteligência artificial para aumentar a eficiência e conter novas contratações. Não explicou, entretanto, quais serviços seriam automatizados, quantos postos poderiam ser atingidos, como seriam protegidos os dados da população nem quais critérios seriam utilizados para avaliar os servidores.
A inteligência artificial apareceu como uma espécie de solução ampla para os problemas administrativos. Cury chegou a defender uma estrutura governamental dedicada à robótica e à IA. A proposta transmite uma imagem de modernidade, mas exige planejamento, infraestrutura tecnológica, integração de sistemas, qualificação profissional e regras para impedir discriminação, vazamento de dados e decisões automatizadas sem controle humano. Esses pontos permaneceram sem resposta.
O mesmo ocorreu com a proposta de criar 10 mil clubes de empreendedorismo em escolas, universidades e igrejas. A ideia pode estimular criatividade, educação financeira e pequenos negócios, mas o candidato não esclareceu quanto custaria o programa, quem prepararia os instrutores, como seriam escolhidas as instituições participantes nem de onde sairiam os recursos.
Cury também defendeu a criação de um Ministério do Empreendedorismo. O Brasil, porém, já possui o Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte, criado em 2023. A repetição de uma estrutura existente mostrou falta de precisão ou, no mínimo, a necessidade de explicar o que seria diferente no novo órgão. A questão também chama atenção porque o candidato afirmou que pretende reduzir o número de ministérios.
O escritor apresentou ainda propostas de mudanças profundas no sistema político: fim da reeleição, voto distrital, mandato de oito anos para ministros do Supremo Tribunal Federal e adoção do parlamentarismo ou de um modelo próximo ao semipresidencialismo. São alterações que dependeriam de emendas constitucionais, negociações extensas no Congresso e, possivelmente, consulta popular. A entrevista não esclareceu como ele construiria apoio político para promover tantas reformas simultaneamente.
O discurso de Cury tem um mérito: procura recolocar a saúde emocional e a capacidade de diálogo no centro da vida pública. Políticas de prevenção ao suicídio, combate à violência contra a mulher, proteção de crianças nas redes sociais e atenção à saúde mental merecem espaço nos programas dos candidatos. Mas essas ações dependem de orçamento, profissionais qualificados e articulação entre União, estados e municípios.
Há também uma contradição entre a ênfase na responsabilidade individual e a dimensão social dos problemas apresentados. Ansiedade, depressão, desemprego juvenil e violência não são produzidos apenas pela incapacidade das pessoas de administrar as próprias emoções. Também estão relacionados a pobreza, precarização do trabalho, dificuldades de acesso à saúde, desigualdade educacional e ausência de perspectivas.
A trajetória empresarial do candidato deveria ter sido examinada com o mesmo rigor. Cury declarou patrimônio de aproximadamente R$ 242 milhões à Justiça Eleitoral, o maior entre os presidenciáveis. O valor inclui empréstimos a empresas, participações societárias, ações e propriedades rurais. Ele atribui a formação do patrimônio à venda de negócios editoriais e educacionais e a investimentos no agronegócio. O patrimônio, por si só, não representa irregularidade, mas torna legítimas perguntas sobre sua experiência empresarial, interesses econômicos e possíveis conflitos.
Cury mostrou segurança ao falar sobre comportamento humano, ansiedade e relacionamentos. Quando a entrevista avançou para orçamento, estrutura administrativa, serviço público e execução das propostas, porém, surgiram respostas genéricas. A Presidência exige mais que sensibilidade, boas intenções e capacidade de comunicação: exige escolhas, números e conhecimento do funcionamento do Estado.
Ao final, Augusto Cury conseguiu apresentar uma candidatura diferente das forças tradicionais e sustentou um discurso de conciliação em meio à polarização. Mas permaneceu a principal dúvida: sua experiência como escritor, psiquiatra e empresário é suficiente para comandar uma administração federal complexa? A entrevista mostrou um candidato habilidoso para interpretar as angústias do país, mas ainda pouco preciso ao explicar como pretende governá-lo.


