Brasília, 31/08/2026

Augusto Cury: o eleitor viu o que nós não vimos?

 Luiz Carlos Bordoni

É saudável que o jornalista volte às próprias análises e, diante de fatos novos, reconheça quando alguma coisa escapou à sua leitura. Faço isso em relação a Augusto Cury.

Fui crítico à sua participação na sabatina presidencial da TV Globo. Não fui exceção. A avaliação predominante entre jornalistas e analistas foi de que Cury demonstrou fragilidade no conhecimento da máquina pública, apresentou propostas sem explicar adequadamente sua viabilidade e, em determinados momentos, pareceu muito mais o escritor e pensador acostumado a grandes conceitos do que um candidato preparado para administrar um país das dimensões e complexidades do Brasil.

Continuo achando que parte dessas críticas é válida, mas surgiu um fato novo que não pode ser ignorado. A pesquisa BTG/Nexus colocou Augusto Cury com 11% das intenções de voto. Ele tinha 2%. Cresceu nove pontos e apareceu em terceiro lugar, atrás apenas de Lula e Flávio Bolsonaro.

Em política, pesquisa é fotografia, não profecia, mas uma fotografia dessas merece atenção. Se a subida estiver relacionada à exposição proporcionada pela entrevista, e a dimensão do salto sugere que ela teve peso importante, ocorreu algo aparentemente contraditório: a entrevista que boa parte dos jornalistas considerou ruim foi muito bem recebida por uma parcela relevante do eleitorado.

Então precisamos perguntar: onde erramos? Talvez o primeiro erro tenha sido julgar Augusto Cury exclusivamente pelos padrões que utilizamos para avaliar políticos profissionais. Queríamos números, planilhas, detalhes administrativos, explicações sobre orçamento, articulação no Congresso e respostas precisas sobre execução.

Tudo isso é necessário. O Presidente da República não governa apenas com boas intenções. Mas talvez o público estivesse procurando outra coisa. Enquanto nós perguntávamos “como ele vai fazer?”, milhões de pessoas podem ter ouvido primeiro “o que ele pretende fazer?”. E encontraram propostas que conversam diretamente com angústias da sociedade.

Cury falou em saúde mental nas escolas num país preocupado com ansiedade, depressão, automutilação e violência entre jovens. Falou em políticas para autistas, pessoas com TDAH, dislexia e altas habilidades, alcançando famílias que muitas vezes se sentem esquecidas pelo poder público.

Defendeu educação financeira, empreendedorismo e pensamento crítico. Propôs acabar com a reeleição para cargos executivos. Quer reduzir ministérios e cargos comissionados e utilizar inteligência artificial para substituir parte da burocracia. Defendeu mandato de oito anos para ministros do Supremo e mudança no sistema de indicação.

Pode-se discordar dessas propostas. Algumas exigiriam alterações constitucionais profundas e dependeriam do Congresso. Mas são ideias e talvez este seja um dos elementos do fenômeno Cury. Ele entrou numa eleição dominada pela polarização falando menos sobre os adversários e mais sobre aquilo que pretende fazer. Isso não significa que suas propostas devam receber salvo-conduto. Muito pelo contrário.

Agora que Cury alcança um patamar eleitoral relevante, sua obrigação de explicar cada uma delas aumenta. A promessa de realizar 80% das consultas básicas do SUS por telemedicina, por exemplo, parece excessivamente ambiciosa. Telemedicina pode ampliar extraordinariamente o acesso à saúde, principalmente em regiões carentes de especialistas. Mas medicina também exige exame físico, diagnóstico presencial e acompanhamento humano.

Há também a proposta de oferecer crédito a milhões de microempresas com juros entre 5% e 6% ao ano. É atraente, mas quem subsidiará essa diferença num país onde o custo do dinheiro historicamente é muito maior? O candidato precisa apresentar a conta.

A mesma cobrança deve existir sobre sua política salarial. Falar em aumento real do salário mínimo é socialmente desejável, mas crescimento salarial sustentável depende de produtividade, crescimento econômico, arrecadação e capacidade fiscal.

Também é gigantesca a proposta de construir ou estimular 100 usinas de etanol de milho e modernizar milhares de agroindústrias. É possível ampliar a agroindustrialização brasileira? Evidentemente, mas números grandiosos precisam vir acompanhados de investimento previsto, origem dos recursos, cronograma e participação da iniciativa privada.

E há propostas que entram quase no terreno dos grandes sonhos internacionais. Criar um Fundo Global Contra a Fome financiado por parcelas do comércio mundial e da indústria de armas é uma ideia humanitariamente sedutora. Um presidente brasileiro pode propor. Não pode determinar que o mundo pague.

Essa distinção entre intenção e capacidade de execução será uma das provas de Augusto Cury daqui para a frente. E há ainda outro componente importante.

Cury talvez esteja ocupando um espaço que muitos imaginavam não existir: o do eleitor cansado de escolher apenas entre os dois polos da política brasileira. Lula e Flávio Bolsonaro carregam estruturas políticas, eleitorado consolidado e rejeições igualmente importantes.

Cury aparece de fora dessa guerra. Não grita. Não parece interessado em transformar adversários em inimigos. Fala de pacificação, saúde emocional, educação, empreendedorismo e reconstrução das relações humanas. Para uma parcela do eleitorado, isso pode soar ingênuo. Para outra, pode soar exatamente como novidade.

É cedo para saber se estamos diante de uma candidatura competitiva ou de uma onda passageira provocada pela enorme exposição televisiva. Onze por cento hoje não garantem onze por cento daqui a um mês.

A campanha começará a cobrar aquilo que uma entrevista isolada não cobra: estrutura partidária, palanques estaduais, recursos, alianças, tempo, resistência aos ataques, domínio dos grandes temas nacionais e capacidade de enfrentar debates sucessivos.

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