Brasília, 07/09/2026

Vitória da extrema direita na Alemanha acende alerta para toda a Europa

A vitória histórica da extrema direita na Saxônia-Anhalt transformou uma eleição regional alemã em sinal de alerta para toda a Europa. A Alternativa para a Alemanha (AfD) conquistou 43,8% dos votos no estado, mais que o dobro de sua votação anterior, e ficou muito perto da maioria absoluta no Parlamento local.

É importante dimensionar corretamente o resultado. A AfD não alcançou 40% em toda a Alemanha. O índice foi registrado na Saxônia-Anhalt, estado do leste do país marcado por renda mais baixa, perda de população e ressentimentos acumulados desde a reunificação alemã. Nacionalmente, o partido aparece nas pesquisas com aproximadamente 28% — percentual que, ainda assim, já o coloca entre as maiores forças políticas do país.

O resultado regional ultrapassa, porém, os limites da antiga Alemanha Oriental. Pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial, uma legenda situada na extrema direita venceu de forma tão contundente uma eleição estadual alemã. A AfD recebeu 43,8% dos votos e conquistou 39 das 83 cadeiras, segundo os resultados preliminares citados pela Associated Press.

A dimensão simbólica é enorme. A democracia alemã foi reconstruída depois do nazismo com instituições, leis e uma cultura política especialmente cuidadosas diante de movimentos autoritários. O avanço da AfD mostra que nem mesmo essa memória histórica funciona como barreira permanente contra o nacionalismo radical.

O partido cresceu explorando uma combinação de insatisfação econômica, rejeição à imigração, aumento do custo de vida, desconfiança nas instituições e revolta contra os partidos tradicionais. Também soube aproveitar o sentimento de abandono presente em parte do leste alemão, onde muitos eleitores acreditam ter sido tratados como cidadãos de segunda classe desde a reunificação.

A imigração ocupa lugar central no discurso da AfD, mas não explica tudo. Na Saxônia-Anhalt, onde a presença de estrangeiros é relativamente reduzida, o receio da imigração funciona também como expressão de inseguranças econômicas, culturais e demográficas. O partido oferece respostas simples, identitárias e nacionalistas para problemas muito mais complexos.

Outro componente importante é a fragilidade do governo do chanceler Friedrich Merz. A CDU, partido de Merz, ficou com apenas 17,2% no estado. O resultado foi interpretado como uma rejeição não apenas ao governo regional, mas também à incapacidade da administração federal de produzir crescimento, segurança econômica e perspectivas para as regiões mais deprimidas. A Reuters destacou que a AfD conseguiu atrair trabalhadores, homens e eleitores mais jovens, ampliando sua base para além do voto tradicionalmente radical.

Até agora, os partidos democráticos alemães mantêm uma espécie de “cordão sanitário”, recusando coalizões com a AfD. A estratégia procura impedir que a extrema direita chegue ao governo. Mas quanto mais o partido cresce, mais difícil fica sustentar esse isolamento sem formar alianças frágeis e heterogêneas entre siglas que pouco têm em comum.

Esse é o verdadeiro dilema alemão. Se os partidos tradicionais se unem apenas para impedir a AfD de governar, podem reforçar a narrativa de que existe um sistema fechado contra a vontade dos eleitores. Se aceitam negociar com a legenda, contribuem para normalizar posições extremistas e rompem uma das principais barreiras políticas construídas no pós-guerra.

A ameaça não está somente na possibilidade de a AfD conquistar o governo federal. Mesmo fora do poder, seu crescimento já desloca o debate público. Partidos conservadores passam a endurecer o discurso sobre imigração, segurança e identidade nacional na tentativa de recuperar eleitores. Com isso, temas e expressões antes considerados incompatíveis com a democracia alemã tornam-se gradualmente aceitáveis.

O fenômeno faz parte de uma transformação mais ampla. Quase um em cada quatro europeus vota atualmente em partidos classificados como de extrema direita, proporção próxima de 5% em meados da década de 1990, segundo levantamento de pesquisadores de 31 países divulgado pelo The Guardian. Essas forças já participam de governos, influenciam maiorias parlamentares ou condicionam o debate político em diferentes partes do continente.

Na União Europeia, uma Alemanha politicamente enfraquecida ou conduzida pela agenda nacionalista teria consequências profundas. O país é a maior economia do bloco e uma de suas principais referências políticas. Uma AfD fortalecida poderia dificultar políticas comuns sobre imigração, clima, defesa, integração europeia e apoio à Ucrânia.

A proximidade de setores do partido com a Rússia também desperta preocupação. A AfD critica as sanções contra Moscou, questiona o apoio militar a Kiev e defende uma política externa mais nacionalista. Sua ascensão pode contribuir para dividir a Europa justamente quando a guerra, a competição econômica e as tensões internacionais exigem maior coordenação entre os países.

A vitória na Saxônia-Anhalt, portanto, não significa que a Alemanha esteja prestes a abandonar a democracia. A AfD ainda enfrenta elevada rejeição, isolamento político e resistência de amplos setores da sociedade. Mas o resultado demonstra que o partido deixou de ser apenas uma força de protesto. Tornou-se uma alternativa eleitoral concreta para milhões de alemães.

O maior erro seria responder ao avanço da extrema direita apenas com condenações morais. A defesa da democracia precisa vir acompanhada de resultados: crescimento econômico, redução das desigualdades regionais, políticas migratórias organizadas, proteção social e recuperação da confiança nas instituições.

A Saxônia-Anhalt não representa toda a Alemanha, mas funciona como advertência. Quando os partidos democráticos deixam de oferecer respostas convincentes, o medo, o ressentimento e a sensação de abandono tornam-se terreno fértil para projetos autoritários. O risco para a Europa não é apenas a extrema direita chegar ao governo. É ela conseguir, antes disso, mudar os limites do que o continente considera politicamente aceitável.

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