Luiz Carlos Bordoni Donald Trump prometeu deportar 1 milhão de imigrantes por ano dos Estados Unidos. Ainda não chegou lá. Mas talvez olhar apenas para esse número seja não compreender a verdadeira dimensão do que está acontecendo.
A política migratória americana mudou profundamente. O Serviço de Imigração e Alfândega, o ICE, registrava 356.389 deportações no ano fiscal de 2026 até meados de julho. Mantido o ritmo, o país poderá terminar o período fiscal com algo entre 450 mil e 500 mil remoções.
A Casa Branca apresenta números ainda maiores. Afirma que mais de 600 mil pessoas foram deportadas e que outras 1,9 milhão deixaram voluntariamente o país. É preciso cautela.
Deportações formais podem ser contabilizadas. “Autodeportações”, não com a mesma precisão. Não existe um controle capaz de estabelecer quantos imigrantes efetivamente abandonaram os Estados Unidos por causa da pressão exercida pelo governo. Estudos independentes apontam estimativas bem menores.
Mas a discussão mais importante talvez não esteja na matemática. Está no método. Todo país tem o direito de controlar suas fronteiras, estabelecer regras migratórias e deportar estrangeiros que estejam irregularmente em seu território, observadas suas leis e garantias fundamentais. O problema começa quando uma política anunciada prioritariamente como combate a criminosos passa a alcançar indiscriminadamente pessoas sem antecedentes criminais e isso está acontecendo.
As operações do ICE avançaram para o interior do país. Aumentaram as detenções, os centros de custódia, os voos de deportação e os procedimentos acelerados de remoção. Em julho, cerca de 65,7 mil imigrantes estavam sob custódia migratória. Ao mesmo tempo, Trump expandiu os acordos pelos quais pessoas podem ser deportadas para terceiros países, inclusive nações com as quais não possuem qualquer vínculo.
Foi sobre essa face particularmente cruel do problema que escrevi anteriormente: brasileiros e outros estrangeiros enviados para países que não são os seus, como se seres humanos pudessem simplesmente ser despachados para onde houver alguém disposto a recebê-los.
Agora percebemos que aquilo faz parte de algo muito maior. Está sendo construída uma verdadeira máquina de detenção e deportação. E uma máquina que não precisa necessariamente prender todos para atingir seu objetivo. Basta produzir medo. Medo de sair para trabalhar. Medo de procurar uma autoridade. Medo de comparecer a uma audiência. Medo de que uma abordagem termine em prisão. Medo de que os pais saiam pela manhã e não retornem para seus filhos.
Esse talvez seja o componente mais eficiente da estratégia. Trump ainda não alcançou a promessa de 1 milhão de deportações anuais, mas conseguiu transmitir a milhões de imigrantes uma mensagem muito clara: permanecer nos Estados Unidos pode significar viver permanentemente sob a possibilidade de ser preso e expulso.
Alguns irão embora espontaneamente. É a chamada autodeportação, não provocada necessariamente por uma ordem judicial, mas pelo medo. E existe uma diferença que uma grande democracia jamais deveria esquecer: combater a imigração irregular é uma política de Estado. Combater criminosos é obrigação do Estado. Controlar fronteiras é direito de qualquer nação, mas preservar a dignidade humana também é dever de uma democracia.
A América que ergueu a Estátua da Liberdade para receber milhões de imigrantes precisa decidir que significado aquela tocha terá daqui para a frente. Se continuará iluminando a liberdade ou se será transformada num facho procurando o próximo imigrante a ser levado.


