Brasília, 16/09/2026

Crise no STF afeta Lula e Flávio assume papel de acusador

A crise no Supremo Tribunal Federal produziu, até agora, um impacto político mais negativo sobre a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva do que sobre a de Flávio Bolsonaro. Isso não significa que o presidente tenha provocado o conflito ou que Flávio tenha escapado das investigações. Significa apenas que, na disputa pela narrativa, o candidato do PL conseguiu aproveitar melhor a desordem institucional.

Os levantamentos mais recentes não permitem atribuir cada oscilação exclusivamente à crise do STF. Pesquisas eleitorais registram movimentos de opinião, mas não comprovam sozinhas suas causas. A sequência dos números, porém, mostra uma redução da vantagem de Lula justamente quando as disputas entre ministros passaram a dominar o debate nacional.

Na pesquisa Quaest divulgada em 2 de setembro, Lula tinha 37% das intenções de voto no primeiro turno, contra 29% de Flávio. No levantamento publicado em 14 de setembro, o presidente apareceu com 36%, enquanto o candidato do PL subiu para 31%. A diferença, portanto, caiu de oito para cinco pontos.

A mudança ficou ainda mais visível nas simulações de segundo turno. Levantamento anterior da Quaest havia mostrado Lula e Flávio empatados, com 41% cada. Na pesquisa seguinte, Flávio apareceu numericamente à frente, com 42%, contra 40% do presidente — empate técnico, mas com uma inversão de posições politicamente relevante.

Outros institutos confirmam que a eleição se tornou mais apertada, embora apresentem resultados diferentes. A AtlasIntel apontou Flávio com 46,4% e Lula com 46,2%. A BTG/Nexus mostrou Lula com 47% e Flávio com 46%, enquanto a CNT/MDA registrou vantagem maior do presidente, de 47,3% a 40%. O conjunto das pesquisas revela uma disputa aberta, com empate técnico em três dos quatro levantamentos mais recentes reunidos pelo UOL.

Lula associado a uma crise que não criou

O principal problema de Lula foi ter assumido, durante alguns dias, a defesa política de uma instituição que deveria responder por seus próprios atos. Ao criticar André Mendonça, defender investigações conduzidas por Alexandre de Moraes e comentar decisões internas do Supremo, o presidente acabou entrando em uma disputa que constitucionalmente não pertence ao Executivo.

Essa atitude facilitou a estratégia de Flávio de apresentar o STF como parte de uma estrutura política ligada ao governo. A associação é imprecisa: Moraes, por exemplo, foi indicado ao Supremo pelo então presidente Michel Temer, em 2017. Mesmo assim, na comunicação eleitoral, a realidade institucional frequentemente perde espaço para a percepção do eleitor.

O próprio Lula percebeu o risco. Em entrevista nesta quarta-feira, 16, ressaltou que não era presidente quando Moraes foi indicado e procurou devolver a crise ao Supremo. Segundo a Folha de S.Paulo, aliados governistas demonstram desconforto com a dificuldade de separar a imagem do presidente da atuação da Corte.

Para Lula, a crise também apresenta um custo de agenda. Em vez de discutir emprego, renda, programas sociais ou realizações do governo, o candidato passou a responder sobre Moraes, Mendonça, Daniel Vorcaro e o Banco Master. Quando o debate eleitoral abandona a economia e se desloca para suspeitas envolvendo instituições, o governante tende a perder mais do que o adversário.

Flávio transformou a defesa em ofensiva

Flávio Bolsonaro vive uma situação contraditória. Ele próprio é investigado por suspeitas relacionadas ao financiamento do filme “Dark Horse” e foi apontado pela Polícia Federal como interlocutor de Daniel Vorcaro nas negociações. Em condições normais, esses fatos colocariam sua campanha na defensiva.

A guerra interna no Supremo, entretanto, permitiu que Flávio mudasse de posição. Em vez de aparecer apenas como investigado, passou a acusar ministros de interferência política, contestar decisões e exigir investigações contra integrantes da Corte. Conseguiu apresentar-se diante de seus eleitores como vítima e fiscal do STF ao mesmo tempo.

Essa inversão funciona especialmente bem junto ao eleitorado bolsonarista, que já mantém uma relação de confronto com o Supremo. As divergências públicas entre Moraes, Mendonça, Gilmar Mendes, Flávio Dino e o presidente da Corte, Edson Fachin, reforçaram o discurso de que haveria atuação política dentro do tribunal.

Flávio também encontrou um ambiente digital mais favorável. Dados apresentados por sua campanha e publicados pela Folha indicam que ele ganhou 8,7 milhões de seguidores em um ano, contra 3,5 milhões de Lula. Os números não equivalem a votos e foram divulgados pela própria campanha, mas mostram maior capacidade de explorar rapidamente episódios de forte repercussão.

O benefício de Flávio pode ser temporário

A vantagem política obtida pelo candidato do PL não elimina seus riscos. Se as investigações apresentarem provas de participação direta em irregularidades, o enquadramento poderá mudar. Flávio deixaria de ser apenas o candidato que denuncia abusos do STF para voltar ao centro do caso como investigado.

A reação de Lula já segue essa direção. O presidente passou a citar as suspeitas sobre o financiamento de “Dark Horse” e a relação de Flávio com Vorcaro. A campanha governista tenta reconstruir o conflito não como uma luta entre Flávio e o Supremo, mas como uma investigação criminal que o candidato procura desmoralizar para se proteger.

Há, portanto, dois tempos distintos. No curto prazo, a crise ajudou Flávio porque enfraqueceu a autoridade política do STF e deslocou para Lula o desgaste de defender a instituição. No médio prazo, porém, o resultado dependerá do conteúdo das investigações e da capacidade do Supremo de restabelecer alguma unidade.

A conclusão mais segura é que Lula sentiu mais o impacto imediato. Flávio não saiu ileso, mas conseguiu transformar vulnerabilidade judicial em combustível eleitoral. Enquanto o presidente foi empurrado para o papel de defensor de uma Corte dividida, seu adversário ocupou o papel mais confortável de acusador.

O paradoxo é evidente: o candidato formalmente investigado ganhou espaço político, enquanto o presidente, sem responsabilidade institucional sobre o STF, passou a pagar parte da conta pela crise. A campanha de Lula já percebeu o problema. Resta saber se conseguirá devolver ao Supremo uma crise que nunca deveria ter levado para o palanque.

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