A maior planície alagável do planeta enfrenta uma redução persistente da superfície coberta por água. O avanço da seca altera a paisagem, ameaça animais, aumenta o risco de incêndios e compromete o abastecimento de comunidades que dependem diretamente dos rios, corixos, baías e poços.
O Pantanal encerrou 2025 com aproximadamente 679 mil hectares cobertos por água, volume 56% inferior à média histórica de 1,56 milhão de hectares. Os dados fazem parte de levantamento do MapBiomas divulgado em junho de 2026. Mato Grosso e Mato Grosso do Sul concentraram algumas das maiores perdas registradas no país.
O problema não se resume à falta de chuva em um único período. O Pantanal depende do chamado pulso de inundação, ciclo anual no qual a água que chega pelos rios ocupa a planície e depois recua lentamente. Segundo a Embrapa, esse movimento sustenta a reprodução dos peixes, a alimentação dos animais, a renovação da vegetação e parte importante da economia regional.
Nos últimos anos, porém, as cheias ficaram menores e mais curtas, enquanto os períodos secos se tornaram mais prolongados. A água que abastece a planície é formada principalmente nas áreas mais altas da Bacia do Alto Paraguai, incluindo regiões do Cerrado. Por isso, alterações ocorridas longe do Pantanal também produzem efeitos dentro do bioma.
Desmatamento de nascentes e matas ciliares, assoreamento dos rios, expansão agropecuária, barragens e mudanças climáticas estão entre os fatores apontados por pesquisadores e organizações ambientais. A degradação do solo diminui sua capacidade de absorver a chuva, acelera o escoamento e carrega sedimentos para os cursos d’água.
A falta de água já faz parte da rotina de moradores de áreas isoladas. Poços secam, a navegação se torna mais difícil e algumas comunidades passam a depender do transporte de água potável. Em outros locais, a água disponível apresenta qualidade inadequada para o consumo.
O SOS Pantanal informa que 11 comunidades participam de um programa de monitoramento mensal da qualidade da água em rios da Bacia do Alto Paraguai. A iniciativa alcança municípios como Corumbá, Aquidauana, Miranda, Poconé e Barão de Melgaço, além de oferecer sistemas de potabilização para famílias vulneráveis.
A redução das áreas alagadas também amplia o material vegetal seco disponível para a propagação do fogo. Com menos rios, lagoas e campos inundados funcionando como barreiras naturais, os incêndios podem avançar rapidamente e atingir regiões de difícil acesso.
A crise hídrica ameaça ainda a pesca, o turismo, a pecuária tradicional e a sobrevivência da fauna. Peixes perdem áreas de reprodução; animais terrestres precisam percorrer distâncias maiores em busca de água; e produtores enfrentam dificuldades para manter o gado durante as estiagens prolongadas.
Especialistas defendem que a recuperação do Pantanal depende da proteção de toda a Bacia do Alto Paraguai. Entre as medidas apontadas estão a preservação de nascentes e matas ciliares, o controle do desmatamento, a recuperação de áreas degradadas, a fiscalização das barragens e o abastecimento permanente das comunidades.
No Pantanal, a falta de água deixou de ser apenas uma consequência passageira da estação seca. Tornou-se um sinal de que o ciclo natural responsável pela existência da planície está sendo profundamente alterado.
