Brasília, 30/09/2026

Com que régua moral estamos medindo os nossos candidatos?

 Luiz Carlos Bordoni

Insisto e persisto na pergunta: com que régua moral o brasileiro anda medindo os nossos candidatos?

Confesso certo desencanto. Não exatamente porque a política tenha descoberto agora a mentira, a corrupção, o oportunismo ou a incoerência. Nada disso nasceu nesta eleição. Minha preocupação é outra: parece que nós, eleitores, estamos perdendo a capacidade de julgar comportamentos independentemente de quem os pratica. Trocamos princípios por preferências.

Durante anos, milhões de brasileiros passaram a associar Lula à corrupção. Seus processos, condenações posteriormente anuladas e toda a história da Lava Jato continuam presentes no debate político. Seus adversários têm todo o direito de cobrar explicações, recordar fatos e estabelecer seus próprios critérios para decidir se confiam ou não nele.

O problema aparece quando essa mesma exigência desaparece diante do candidato de nossa preferência.

Flávio Bolsonaro também atravessou episódios que suscitaram questionamentos públicos. Houve o caso das chamadas “rachadinhas”, cuja denúncia acabou arquivada depois que provas foram anuladas judicialmente. Quando deputado estadual, propôs homenagem a Adriano da Nóbrega, que posteriormente seria apontado pelas autoridades como integrante de milícia. E existem agora questionamentos e investigação envolvendo suas relações com o banqueiro Daniel Vorcaro.

Isso significa que Flávio Bolsonaro seja culpado de algum crime? Não. Quem estabelece a culpa criminal é a Justiça, mediante provas, contraditório e devido processo legal. A presunção de inocência é uma conquista civilizatória e deve valer para Lula, Flávio, para mim, para você e para qualquer cidadão.

Mas existe outra dimensão, diferente da penal. É a dimensão moral da vida pública. O cidadão não precisa esperar uma sentença criminal definitiva para decidir se determinada conduta lhe inspira confiança suficiente para entregar a alguém a Presidência da República.

A velha máxima atribuída à história da mulher de César continua extraordinariamente atual: a quem ocupa determinadas posições não basta ser honesto; é preciso também preservar a confiança de que é honesto.

Isso não significa transformar suspeita em culpa. Significa apenas reconhecer que o exercício do poder público exige padrões de comportamento que vão além do Código Penal. Quem pretende administrar dinheiro público, comandar instituições, indicar autoridades, representar uma nação e exercer enorme parcela de poder precisa aceitar um escrutínio moral muito mais rigoroso que aquele aplicado ao cidadão comum.

E é justamente aí que começo a me preocupar com o Brasil de hoje. Parece que inventamos duas réguas. Com uma delas medimos o adversário. Ela é rígida, milimétrica, implacável. Uma suspeita basta. Uma fotografia compromete. Uma amizade condena. Uma declaração antiga é recuperada. Uma investigação transforma-se quase imediatamente em sentença.

Depois pegamos a segunda régua. Essa serve para medir o nosso candidato. De repente surgem as explicações, as circunstâncias, as perseguições, as nulidades processuais, os exageros da imprensa, as coincidências, os amigos inconvenientes e toda espécie de justificativa. É quase a institucionalização de uma frase terrível: “O meu ladrão é melhor do que o seu.”

Não estou chamando Lula, Flávio ou qualquer candidato de ladrão. A frase descreve uma deformação do pensamento político: a disposição de relativizar no aliado exatamente aquilo que condenamos no adversário. Isso é perigoso, porque princípios somente são princípios quando sobrevivem às nossas conveniências.

Se corrupção é errada, deve ser errada quando praticada pela esquerda, pela direita ou pelo centro. Se mentira é moralmente condenável, não pode tornar-se aceitável porque ajudou o candidato de quem gostamos. Se relações suspeitas merecem explicações, elas devem ser cobradas de todos.

Não existe honestidade de direita nem honestidade de esquerda. Existe honestidade. Talvez a polarização tenha provocado em nós algo ainda mais grave que a divisão política: a terceirização da consciência. Já não perguntamos primeiro “o que aconteceu?”. Perguntamos “quem fez?” e somente depois decidimos se aquilo é certo ou errado.

Quando chegamos a esse ponto, não estamos mais escolhendo candidatos segundo nossos valores. Estamos adaptando nossos valores aos candidatos que já escolhemos. É uma inversão assustadora.

A democracia pressupõe divergência. Podemos discordar sobre economia, segurança, impostos, costumes, tamanho do Estado, relações internacionais e praticamente tudo mais, mas uma sociedade precisa conservar alguns denominadores morais comuns. Honestidade. Decência. Verdade. Respeito ao dinheiro público. Responsabilidade. Coerência. Sem isso, eleição deixa de ser confronto de projetos e começa a parecer campeonato de torcidas e torcida não julga. Torcida perdoa o pênalti do próprio time e exige cartão vermelho para o adversário.

Talvez esteja aí a razão do meu desencanto. Não porque tenhamos candidatos imperfeitos. Sempre tivemos e sempre teremos, mas porque começamos a aceitar que nossos princípios também sejam imperfeitos conforme a conveniência eleitoral.

Antes de escolhermos quem governará o Brasil, talvez precisemos recuperar uma coisa muito mais simples: uma única régua. E coragem suficiente para aplicá-la igualmente a todos.

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