Brasília, 01/10/2026

Empresa ligada a amigo de Flávio Bolsonaro faturou R$ 188 mi intermediando pagamentos de bets da Loterj

247 – Uma intermediadora responsável por processar pagamentos de casas de apostas credenciadas pela Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) acumulou R$ 187,8 milhões em receitas entre junho de 2023 e agosto de 2026. A RioPag tem como única acionista a Capital Pretium, representada por Lidia Mazelli, ex-funcionária do advogado (foto) Willer Tomaz, amigo do senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República.

Segundo a coluna do jornalista Artur Rodrigues, do UOL, dos R$ 233 milhões faturados com a intermediação dos pagamentos no período analisado, 80,6% ficaram com a RioPag. A parcela destinada à Loterj somou R$ 45,2 milhões.

Os valores correspondem às taxas cobradas pelo processamento das operações financeiras. Portanto, não representam o montante total apostado pelos clientes das plataformas nem o lucro líquido obtido pela RioPag.

RioPag ficou com 80,6% das receitas

Os registros obtidos pela reportagem mostram que a companhia chegou a contabilizar R$ 38,1 milhões em receitas em apenas um mês. O resultado ocorreu em janeiro de 2025, quando R$ 7,3 milhões foram destinados à Loterj.

Entre janeiro e agosto de 2026, a documentação aponta R$ 13,6 milhões em receitas para a RioPag e R$ 4,9 milhões para a autarquia estadual.

A empresa é responsável por processar a entrada de recursos nas contas dos apostadores e as operações de saída, entre elas saques e pagamentos de prêmios, para casas de apostas credenciadas pelo governo fluminense.

Ligação empresarial passa por ex-funcionária de Tomaz

A RioPag tem como única acionista a Capital Pretium. A empresa é representada por Lidia Mazelli, que trabalhou anteriormente para Willer Tomaz e aparece ou apareceu na administração de 14 companhias relacionadas ao advogado, conforme a reportagem.

Tomaz, por sua vez, mantém relação pessoal antiga com Flávio Bolsonaro. Durante a CPI da Pandemia, o próprio senador se referiu publicamente ao advogado como “amigo”.

Os dois também viajaram juntos para um safári na África do Sul. Flávio Bolsonaro ainda viajou em um jato particular que pertenceu a Tomaz, tendo como sócio o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e utilizou um apartamento emprestado em São Paulo durante sua campanha presidencial.

Antes de pertencer a Tomaz, o imóvel havia sido propriedade de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro.

Contrato foi alterado em 2024

O contrato da RioPag com a Loterj foi firmado em 2023, durante a gestão de Cláudio Castro (PL) no governo fluminense. Naquele momento, a autarquia era comandada por Hazenclever Lopes Cançado.

A empresa contratada utilizava originalmente o nome Pixs Cobrança e Serviços em Tecnologia. Posteriormente, passou a adotar a denominação RioPag, mantendo o mesmo CNPJ.

Pelas regras iniciais do contrato, a intermediadora poderia cobrar 2,5% sobre os depósitos e 1% sobre os saques processados.

Um aditivo firmado em setembro de 2024 modificou esse sistema. A partir da alteração, as taxas sobre depósitos poderiam variar entre 1% e 2,5%, enquanto as cobranças sobre as saídas passaram para uma faixa entre 0,5% e 1%.

O documento também atribuiu à RioPag a prerrogativa de estabelecer o percentual aplicado a cada operador conforme o volume individual movimentado.

O aditivo foi assinado por Lídia Maria Figueiredo Mazelli como representante da companhia.

A Loterj posteriormente solicitou à empresa uma tabela progressiva das taxas cobradas dos operadores e informações sobre os critérios utilizados para estabelecer os percentuais. A RioPag respondeu que o contrato não previa uma tabela única e padronizada e sustentou que a definição das taxas estava amparada pelo aditivo.

Loterj contesta retenção de R$ 20,9 milhões

A relação contratual entrou em uma disputa após a mudança na administração da Loterj.

Segundo informações inicialmente publicadas pelo Metrópoles e citadas pelo UOL, o governo fluminense acusa a RioPag de ter retido indevidamente R$ 20,9 milhões. A autarquia decidiu romper o contrato, medida que contou com o acompanhamento da Procuradoria do Estado.

A controvérsia envolve recursos que vinham sendo retidos pela empresa com autorização da antiga administração da Loterj. A nova gestão requisitou os valores.

Em 22 de setembro, a autarquia decidiu rescindir unilateralmente o contrato.

Os documentos do processo mencionam ainda uma multa de R$ 4,8 milhões e uma cobrança de R$ 9,4 milhões contra a companhia.

A RioPag contesta as medidas adotadas pelo governo estadual.

Liminar mantém contrato em vigor

Três dias depois da decisão administrativa, a RioPag conseguiu suspender judicialmente o encerramento do contrato e as punições impostas pela Loterj.

A liminar foi concedida pela juíza Neusa Regina Larsen de Alvarenga Leite, da 14ª Vara da Fazenda Pública da Capital.

A magistrada identificou possíveis falhas no procedimento administrativo, entre elas duas decisões adotadas por autoridades diferentes, com intervalo de nove minutos, sobre um incidente no qual a empresa questionava o impedimento e a suspeição dos responsáveis pela condução do processo.

A decisão é provisória e não determina se houve descumprimento contratual por parte da RioPag nem resolve a controvérsia sobre a possibilidade de retenção dos recursos.

Com a liminar, a empresa continua prestando o serviço enquanto a disputa permanece na Justiça.

A Loterj informou que a decisão judicial corre em segredo de Justiça e afirmou que está adotando medidas para revertê-la. Segundo a reportagem, a Procuradoria também pretende recorrer.

Willer Tomaz nega ser sócio ou gestor da RioPag

Procurado pela reportagemL, Willer Tomaz rejeitou a atribuição de participação societária ou administrativa direta na RioPag.

“Não é sócio da RioPag nem integra sua direção. Sua atuação junto à empresa se dá no exercício da advocacia, função que não deve ser confundida com a de gestor ou proprietário”, afirmou o advogado.

Tomaz também declarou que “a rescisão do contrato com a Loterj encontra-se judicializada e deverá ser dirimida no âmbito do processo, razão pela qual, em respeito ao sigilo profissional, ele não comentará detalhes da causa. Questionamentos sobre o tema e os repasses devem ser dirigidos diretamente à companhia”.

O advogado também foi alvo de buscas da Polícia Federal no âmbito da Operação Sem Desconto, que investiga irregularidades envolvendo descontos em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Em outra frente, a PF apura movimentações realizadas por Tomaz em plataformas de apostas após o advogado recorrer à Justiça buscando o ressarcimento de R$ 163 milhões da Blaze. De acordo com a ação, ele teria movimentado R$ 6,6 bilhões na plataforma ao longo de 18 meses.

Tags

Gostou? Compartilhe!