O ministro Alexandre Padilha, o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto e o senador Jaques Wagner (PT-BA) são citados em relatos atribuídos a Daniel Vorcaro sobre uma suposta negociação para captar recursos de fundos de previdência para o Banco Master. Segundo a CNN Brasil, integrantes da Polícia Federal afirmam que a proposta de delação do empresário foi recusada por falta de elementos mínimos de credibilidade, avaliação também adotada pela Procuradoria-Geral da República.
As acusações foram divulgadas pela revista Veja, que afirma ter obtido mensagens, documentos e um áudio do banqueiro. Na versão apresentada pela publicação, Vorcaro teria destinado aproximadamente R$ 30 milhões em dinheiro ao financiamento do documentário “Lula”, dirigido por Oliver Stone, além de recursos ao Instituto Lula, dirigido por Paulo Okamotto.
Uma fonte da PGR ouvida reservadamente pela CNN, porém, afirma que o áudio publicado pela revista não foi entregue à equipe responsável pelas negociações de colaboração premiada. Há suspeita, segundo essa fonte, de que a gravação tenha sido feita depois do fracasso das tratativas. A data do áudio não está esclarecida.
A mesma fonte aponta diferenças entre o material apresentado pelos advogados e os relatos reproduzidos pela Veja. Segundo ela, os documentos entregues à Procuradoria eram esquemáticos e redigidos em terceira pessoa. Expressões presentes na reportagem, como “mordidas” e “caciques”, não teriam sido usadas nas negociações.
A defesa de Vorcaro sustenta que dispõe de mensagens, registros de pessoas que retiraram dinheiro em espécie e informações sobre locais utilizados para as supostas entregas. Esses elementos, entretanto, não foram considerados suficientes para fazer a proposta avançar, conforme os relatos de integrantes da PF à CNN.
Na narrativa atribuída ao empresário, a aproximação com Vaccari foi conduzida por Augusto Lima, então executivo e sócio do Master. Jaques Wagner teria intermediado o primeiro encontro. As informações constariam de um anexo apresentado à PGR em junho, durante a segunda tentativa de delação, também rejeitada.
Vorcaro afirma que o acesso aos investimentos dependeria de pagamentos antecipados para despesas do documentário e para o Instituto Lula. Vaccari teria exigido ainda uma comissão de 10% sobre os valores captados junto a instituições ligadas ao Banco do Brasil, à Caixa Econômica Federal, à Petrobras e aos Correios.
A reportagem menciona uma projeção de R$ 1 bilhão para o PT e R$ 9 bilhões para o Master. Os números correspondem ao alcance estimado das operações descritas pelo banqueiro, e não a valores efetivamente captados ou distribuídos.
O áudio divulgado pela Veja também aborda o financiamento de “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro que recebeu recursos do Master. Vorcaro procura diferenciar os pagamentos: classifica o dinheiro destinado ao documentário sobre Lula como irregular e o financiamento ligado a Flávio Bolsonaro como patrocínio normal. Essa distinção representa a versão do empresário, sem comprovar a legalidade de qualquer das operações.
Outro núcleo das acusações envolve Padilha, então ministro das Relações Institucionais, seu secretário-executivo à época, Olavo Noleto, e intermediários. Um deles é identificado nas mensagens apenas como “Júlio”, que teria acesso ao gabinete do ministro e atuaria nos contatos com dirigentes dos fundos.
Segundo a Veja, Júlio apresentou Vorcaro a Noleto. A publicação também reproduz uma mensagem do empresário e ex-ministro Walfrido dos Mares Guia sobre a aproximação. Vorcaro afirma ter conhecido Padilha no Planalto e participado de pelo menos dois jantares com ele.
Na versão do banqueiro, intermediários teriam condicionado os investimentos de Previ, Petros e Postalis ao pagamento de propina equivalente a 10% dos recursos captados. As mensagens reproduzidas na reportagem tratam de reuniões, envio de e-mails e cobranças para que as negociações produzissem resultados.
A revista relaciona ainda uma cobrança de R$ 500 mil à inclusão do Master, em 29 de abril de 2024, na chamada “lista exaustiva”, que reúne instituições autorizadas a receber determinados recursos previdenciários. A coincidência de datas integra a narrativa publicada, mas não estabelece, por si só, uma relação comprovada entre o pagamento alegado e a autorização.
Os negócios pretendidos nos fundos federais não avançaram. Segundo o texto divulgado pela CNN, uma tentativa de negociar R$ 500 milhões em letras financeiras do Master na Caixa foi comprometida após informações sobre a operação chegarem à imprensa.
Mensagens de outubro de 2024 também mencionam a organização de um encontro com Lula, mas não esclarecem se a reunião discutida ocorreu. Já os diálogos de 2025 mostram Vorcaro cobrando resultados e reclamando de mais de um ano de tentativas sem conseguir concluir os investimentos. Posteriormente, ele sinaliza o encerramento do trabalho dos intermediários.
Procurado pela Veja, Lula negou ter solicitado ou recebido vantagens financeiras e afirmou que não autorizou terceiros a receber recursos de Vorcaro em seu nome. Padilha também negou relação com o banqueiro. A CNN informou ter procurado o Planalto, o Instituto Lula, a campanha do presidente e a assessoria de Padilha. Olavo Noleto disse que não se manifestaria. A emissora também buscava contato com Vaccari, Walfrido dos Mares Guia e Okamotto.
Vorcaro já teve duas propostas de delação rejeitadas. As acusações publicadas dependem de comprovação, e a avaliação relatada pela PF e pela PGR é de que o material apresentado nas negociações não ofereceu sustentação suficiente para a colaboração premiada.


