Brasília, 24/10/2026

Quando a verdade entra na disputa

Luiz Carlos Bordoni

Na reta final da eleição presidencial, Lula e Flávio Bolsonaro enfrentaram, no debate da TV Globo, um adversário que não estava diante das câmeras: os fatos. As declarações dos dois candidatos passaram pelo crivo de agências de checagem, revelando informações verdadeiras, números incorretos, exageros e afirmações retiradas de contexto.

O exercício é fundamental. Em uma democracia, o eleitor precisa distinguir a realidade da propaganda. Afinal, uma informação não se torna verdadeira porque foi pronunciada por um presidente ou por um senador que pretende ocupar a Presidência da República.

Flávio Bolsonaro afirmou que o Brasil tinha mais de 11.500 obras paralisadas. A informação foi considerada falsa para o período mencionado. Segundo levantamento do Tribunal de Contas da União, eram 4.215 em julho de 2026. O candidato também apresentou uma interpretação distorcida de declaração de Lula sobre roubos de celulares.

Por outro lado, Flávio utilizou informações confirmadas pelas checagens, como a elevação do benefício social para R$600 durante o governo de Jair Bolsonaro, embora a medida tenha sido inicialmente temporária. Também foram confirmadas declarações sobre a dívida bruta brasileira e a instalação de pontos de acesso à internet.

Lula, por sua vez, afirmou ter herdado 6 mil obras paralisadas. O número estava abaixo das 8.603 identificadas pelo TCU em abril de 2023. Nesse caso, o dado incorreto não ampliava o problema: diminuía sua dimensão.

O presidente também errou ao afirmar que a economia brasileira não havia crescido mais de 3% depois de 2010. Os dados econômicos registraram crescimento superior a esse percentual em 2011, 2021 e 2022.

Em contrapartida, as checagens confirmaram as declarações de Lula sobre o recorde das exportações brasileiras em 2025 e a abertura de aproximadamente 700 novos mercados para produtos do agronegócio. Já a afirmação de que os investimentos em infraestrutura teriam triplicado ou quadruplicado não encontrou confirmação nos indicadores examinados.

Esses exemplos revelam um problema recorrente nos debates eleitorais: a utilização seletiva dos números. O candidato destaca o indicador que lhe interessa, escolhe o período mais conveniente e, muitas vezes, deixa de apresentar as circunstâncias necessárias à compreensão dos dados.

Há, entretanto, uma distinção indispensável. Nem toda informação errada é uma mentira deliberada. Existem erros de memória, diferenças metodológicas, números desatualizados e interpretações divergentes. A falsidade de uma afirmação pode ser demonstrada; a intenção de enganar exige elementos adicionais.

Também não seria correto transformar uma checagem jornalística em placar eleitoral. A quantidade de declarações examinadas não representa necessariamente a totalidade das falas dos candidatos, nem mede automaticamente a gravidade de cada erro.

O debate presidencial deveria servir ao esclarecimento de propostas, à comparação de programas e à prestação de contas. Quando se transforma em uma guerra de estatísticas, corre o risco de confundir justamente quem deveria informar: o eleitor.

Neste domingo, milhões de brasileiros decidirão o futuro político do país. É uma decisão que merece mais do que frases de efeito, acusações e números escolhidos a dedo.

A verdade não tem partido, não usa estrela nem veste as cores de uma campanha. Os fatos não votam, mas deveriam ajudar o eleitor a votar.

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