Luiz Carlos Bordoni
As urnas encerraram uma das mais disputadas eleições presidenciais da história brasileira. Luiz Inácio Lula da Silva venceu Flávio Bolsonaro e conquistou seu quarto mandato na Presidência da República. Uma vitória histórica, não apenas pela longevidade política do vencedor, mas também pelas circunstâncias em que ocorreu. Lula chegou ao segundo turno depois de terminar atrás do adversário na primeira votação. Reverteu o resultado e voltou a conquistar a confiança da maioria dos eleitores que compareceram às urnas e votaram validamente.
Mas é preciso compreender que vencer uma eleição não significa vencer todos os desafios de governar. O voto confere legitimidade ao presidente, não lhe entrega um cheque em branco. O Brasil que emerge das urnas continua sendo um país profundamente dividido, com divergências políticas, econômicas e ideológicas que não desaparecerão por decreto, discursos ou comemorações.
Lula venceu. Flávio perdeu. Essa é a sentença democrática das urnas. Entretanto, seria um grave equívoco transformar o resultado numa espécie de autorização para que vencedores humilhem vencidos, ou para que derrotados tratem a vontade popular como uma afronta.
A democracia não exige unanimidade. Exige respeito às diferenças e às regras do jogo.
O desafio de governar um país dividido
O presidente reeleito terá diante de si um cenário complexo. Precisará equilibrar as contas públicas, estimular investimentos, gerar empregos, melhorar os serviços essenciais e enfrentar desigualdades sociais que persistem há décadas.
Terá, ainda, de negociar com um Congresso Nacional de perfil predominantemente conservador, no qual o diálogo será indispensável. A aritmética parlamentar não obedece automaticamente à matemática eleitoral. Ganhar a Presidência não significa conquistar maioria no Legislativo.
Lula conhece os caminhos e os atalhos de Brasília. Tem experiência, habilidade política e capacidade de negociação, mas precisará demonstrar que essas qualidades serão colocadas a serviço do interesse nacional, e não apenas da sobrevivência de seu projeto político.
Há outra tarefa igualmente importante: reconstruir pontes entre brasileiros que aprenderam a se enxergar como inimigos. O radicalismo contaminou famílias, amizades, ambientes profissionais e até comunidades religiosas. A política, que deveria ser instrumento de construção coletiva, tornou-se, muitas vezes, motivo de hostilidade.
Não será uma tarefa fácil e não dependerá exclusivamente do presidente.
A responsabilidade de quem perdeu
Flávio Bolsonaro recebeu uma expressiva votação. Milhões de brasileiros depositaram nele suas esperanças, convicções e expectativas. Esses cidadãos não desapareceram com a derrota de seu candidato. Continuam brasileiros, contribuintes, trabalhadores e legítimos participantes da vida nacional.
Cabe ao senador reconhecer a decisão das urnas e exercer, ao lado de seus aliados, uma oposição responsável, vigilante e democrática.
Oposição não é sabotagem. Fiscalizar não é impedir que o país avance. Criticar o governo é um direito; trabalhar pelo fracasso da Nação é outra coisa.
Da mesma forma, o presidente não pode confundir oposição com inimigo, nem tratar divergências como manifestações de deslealdade ao Brasil.
É perfeitamente possível discordar de um governo e desejar que ele acerte. Aliás, esse deveria ser o comportamento natural de uma sociedade politicamente amadurecida.
O Brasil é maior que seus governantes
Costumo pensar que somos todos sócios de uma mesma e gigantesca empresa chamada Brasil. Temos direitos, deveres, interesses distintos e responsabilidades compartilhadas. Nenhum sócio sensato torce pela falência da empresa simplesmente porque não conseguiu eleger seu administrador preferido.
Se a economia crescer, se a inflação for controlada, se houver mais empregos, segurança, educação e saúde, os benefícios alcançarão também aqueles que não votaram em Lula. Se o governo fracassar, as consequências igualmente atingirão seus eleitores.
A eleição acabou. As paixões eleitorais precisam ceder lugar à razão, ao respeito e à responsabilidade coletiva. Não se trata de pedir que os brasileiros abandonem suas convicções. Muito menos que deixem de fiscalizar, cobrar ou denunciar eventuais erros do governo. Trata-se de compreender que o interesse nacional deve estar acima das conveniências partidárias.
Lula terá mais quatro anos para demonstrar que merece a confiança recebida. Será julgado, como deve acontecer numa democracia, pelos resultados de sua administração, e não apenas pela habilidade de seus discursos.
Ao eleitor cabe continuar participando. A cidadania não termina diante da urna eletrônica. Ela prossegue na cobrança, na fiscalização e na defesa permanente das instituições democráticas.
Lula venceu a eleição. Que tenha grandeza para governar todos os brasileiros, humildade para reconhecer erros e coragem para fazer o que precisa ser feito e que nós, brasileiros, saibamos distinguir a vitória de um candidato do destino de uma Nação.
Sim, porque, acima de Lula, de Flávio, da esquerda, da direita e de qualquer partido, existe um país que precisa encontrar seu caminho. A eleição teve um vencedor. Os próximos quatro anos precisam ter mais de 200 milhões de vencedores. Que vença o Brasil!



