Brasília, 06/11/2026

Ueno: banco ligado ao poder leva Peña à beira do impeachment

O colapso do Ueno Bank expôs uma rede de relações entre empresários, autoridades e recursos públicos que colocou a Presidência do Paraguai em risco. Santiago Peña apresentou sua renúncia na quinta-feira (5), mas continua no cargo porque o Congresso ficou sem quórum para deliberar sobre a saída. Convocado a apresentar sua defesa nesta sexta-feira (6), ele enfrenta um processo de impeachment no Senado, enquanto quase 3 milhões de clientes foram atingidos pelo bloqueio das operações do banco, segundo a CNN Brasil.

Por trás da instituição está o Grupo Vázquez, comandado pelo empresário Federico Miguel Vázquez Villasanti, conhecido como Miguel Vázquez. Presidente do conglomerado e um dos principais dirigentes do Ueno, ele está entre os investigados por operações que teriam comprometido a saúde financeira do banco. Na quinta-feira, o juiz Rodrigo Estigarribia determinou sua prisão preventiva, informou o jornal paraguaio ABC Color.

A trajetória do Ueno começou em 2021, quando o Grupo Vázquez comprou a Financiera El Comercio. O conglomerado já controlava a Credicentro e apostou em serviços pelo celular para ampliar sua presença no mercado. A instituição passou a operar como banco em dezembro de 2023 e absorveu o Visión Banco em 2024, incorporando clientes, ativos e uma estrutura já estabelecida, conforme levantamento do Infobae.

A ligação com Peña passa por essa estrutura empresarial. Segundo a Reuters, o presidente afirmou ter sido acionista do Grupo Vázquez até março de 2025, quando vendeu sua participação. O Ueno, por sua vez, sustenta que ele nunca teve relação direta com o banco como acionista ou investidor. A distinção é relevante: o vínculo admitido por Peña era com o conglomerado controlador.

Outro personagem central é Carlos Carvallo, que presidiu a Financiera Ueno antes de ser nomeado por Peña para comandar o Banco Central do Paraguai. A passagem de uma instituição privada para o órgão responsável por fiscalizá-la tornou-se um dos pontos da acusação aprovada pela Câmara. Carvallo deixou o Banco Central na terça-feira (3), a pedido do presidente, segundo a CNN Brasil e o registro oficial dos deputados paraguaios.

O dinheiro público também ampliou a dimensão do escândalo. O Ueno administrava aproximadamente US$ 850 milhões de organismos estatais. Segundo o Buenos Aires Herald, cerca de US$ 355 milhões pertenciam ao Instituto de Previsión Social, responsável por aposentadorias e serviços de saúde. A instituição também recebia benefícios de aproximadamente 32 mil aposentados e mantinha operações com a empresa estatal de eletricidade, a ANDE.

No centro da investigação financeira estão empréstimos a empresas relacionadas ao próprio grupo controlador. Segundo o Ministério Público paraguaio, em relato publicado pela Folha de S.Paulo, o Ueno teria simulado a venda de uma carteira de crédito de US$ 74,4 milhões à Vinanzas SA, empresa também vinculada à instituição. A suspeita é que a compradora tenha recebido, indiretamente, dinheiro do próprio banco para realizar a aquisição.

A Vinanzas dispunha de apenas US$ 93,8 mil antes da transação, mas recebeu US$ 76,06 milhões em aportes financiados por empréstimos do Ueno a empresas ligadas ao Grupo Vázquez, conforme a mesma reportagem. Para a acusação, a operação teria servido para ocultar a situação patrimonial do banco: os créditos saíam formalmente da carteira, mas sua compra continuava sustentada por recursos da própria instituição.

A apuração alcançou 27 pessoas. Além de Vázquez, a Justiça determinou a prisão preventiva de Juan Manuel Gustale, presidente do Ueno, e de outros quatro integrantes da administração. Duas dirigentes receberam prisão domiciliar. As medidas são cautelares e não representam condenação pelos fatos investigados, conforme o estágio do processo relatado pelo ABC Color.

A defesa de Gustale, Alejandro Gómez Abente e Diego Duarte contesta a responsabilização dos executivos. Ao ABC Color, o advogado José Fernández Zacur afirmou que seus clientes colaboraram com a fiscalização e alegou que eles desconheciam os vínculos entre determinadas empresas beneficiárias dos créditos e o grupo empresarial do banco. Também questionou a individualização das condutas na acusação.

Na esfera política, a Câmara aprovou a acusação contra Peña por 78 votos. Segundo o comunicado oficial da Casa, o pedido aponta possível conflito de interesses, a nomeação de Carvallo para o Banco Central, mudanças na legislação sobre conflitos de interesses e a concentração de recursos previdenciários no Ueno acima dos limites previstos nas normas. São acusações que serão examinadas pelo Senado.

A crise atingiu também a sustentação do governo. O Partido Colorado apoiou o processo contra Peña, mas preservou o vice-presidente Pedro Alliana. A tentativa de impeachment do vice foi rejeitada por 48 votos a 30, mantendo-o na linha de sucessão caso a saída do presidente seja efetivada, de acordo com a CNN Brasil.

A renúncia abriu uma disputa adicional. Opositores defendem que o Senado conclua o julgamento porque a destituição impediria Peña de recorrer à condição de senador vitalício e às proteções associadas ao posto. A sessão conjunta convocada para analisar sua renúncia foi interrompida depois que governistas abandonaram o plenário, deixando a decisão pendente, informou a Folha de S.Paulo.

Peña anunciou que apresentará argumentos e provas em sua defesa e afirmou que o ressarcimento dos clientes não pode depender de seu futuro político. Para os paraguaios com contas bloqueadas, porém, a urgência continua sendo recuperar o dinheiro. O fundo garantidor prevê cobertura de até aproximadamente US$ 38 mil por depositante, suficiente para cobrir integralmente os saldos de cerca de 97% dos clientes, segundo o Buenos Aires Herald.

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