Jales Naves – Especial para A Redação
Goiânia – Existem histórias que nascem de uma paixão. Outras, de uma memória, de um sentimento de pertencimento e de um compromisso com as próximas gerações. Dessa relação profunda com a terra nasceu “Pelo Cerrado – Ensaio sobre o sistema biogeográfico do cerrado”, primeiro livro do publicitário e cientista político Hamilton Carneiro, lançado na manhã desta sexta sexta-feira, dia 6, no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Foi um sucesso de vendagem, 132 exemplares; desde antes do início da cerimônia já existia fila para aquisição da obra, quando ainda nem tinha chegado ao IHGG; logo após o encerramento da sessão, formou-se longa fila de pessoas querendo o autógrafo do autor.
Essa paixão o levou a escrever a letra para uma canção, que foi musicada por Genésio Tocantins e se transformou no sucesso “Frutos da Terra”, que mais tarde veio a inspirar um programa de televisão, que durou 38 anos, e hoje está nas redes sociais, com meio milhão de seguidores. “Como convivi com várias mídias, achei que devia documentar esse aprendizado nas páginas de um livro”, disse Hamilton. “É esta singela obra que hoje entrego para apreciação de vocês”.
“Nasci, cresci e estou durando no cerrado”, afirmou, em seu pronunciamento. “Me apaixonei tanto por esse pedaço de chão, até há bem pouco tempo olhado vesgamente como o primo pobre dos outros biomas”. Quando entra cerrado adentro – explicou – “posso dizer que já tenho intimidade com uma sucupira, com um pau terra, com um vinhático e conheço bem suas serventias como madeiras e sua importância como fornecedores de remédio nessa vasta farmácia do mundo, que está perdendo capacidade de renovação de seu estoque, com um prejuízo incalculável para a vida”.
No lançamento, a presença do presidente do IHGG, Jales Guedes Coelho Mendonça, que fez o prefácio da obra e agradeceu ao autor pela escolha do Instituto para entrega de seu primeiro livro; o ex-governador Irapuan Costa Júnior, que trabalhou com Hamilton há mais de 50 anos; o professor Sandro Dutra, que fez a apresentação do trabalho; Altair Sales, que foi consultado em diversos momentos pelo autor e respondeu às suas indagações; e a arquiteta Narcisa Abreu Cordeiro, representando a Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, que reafirmou sua proposta de resgatar o plano original de Goiânia, com parques e jardins, e transformá-la numa cidade modelo na área do meio ambiente.
As apresentações musicais ficaram a cargo dos cantores Pádua, Fernando Perillo e Marcelo Barra e da dupla André e Andrade.
Frutos da terra
A paixão pelo cerrado não era uma declaração que fazia naquele momento e contou uma história de como tudo começou. “Quando esperava carona de um motorista passante numa estrada de terra, tive meu primeiro choque com o progresso: vi dois tratores, ligados pelo correntão, virando de raiz para cima uma currioleira e um pequizeiro próximo. Quando senti que estavam ameaçadas as touceiras de gabiroba, as mangabeiras, as mamacadelas e outras frutas de minha infância me inspirei para escrever”, recorda-se.
Foi a partir dessa inspiração que começou todo o seu trabalho na área, fazendo essa primeira peça musical, depois o sucesso em que se constituiu o programa de televisão, e agora primeiro livro.
Hamilton fez questão de afirmar que ficou seguro com a qualidade da obra para publicação pelo aval que recebeu dos mestres doutores Altair Sales Barbosa, Sandro Dutra e o anfitrião do encontro, presidente Jales Mendonça. “As amizades que venho cultivando nessas terras do cerrado, certamente, os trouxeram até aqui”, afirmou. Com a leitura da obra vai ter uma prova de seu comportamento perante tantos amigos. “O livro está aí. Com erros e acertos, não diminui minha paixão pelo cerrado”. “Reuni nessa história personagens reais, como vovô João e Liz, que está aqui, e personagens lúdicos, como a Pamonhita, o Pequitito, o Emílio, o Simbinha e o sábio Urutau”.
“Continuo abraçando as árvores, alimentando os pássaros, conversando com os bichos e cultivando as pessoas com a mesma paixão que haverei de levar para meu último endereço”, assegurou.
Passarinho
Encerrando, Hamilton contou uma passagem real.
No final do ano passado, sua mulher Shirly e ele, acompanhando o filho Pedro Ernesto em sua formatura em Marketing em São Paulo, saíram para um rápido passeio no centro da cidade. Passando por uma árvore centenária ouviu um sanhaço cantando. “Como tenho a mania de arremedar passarinhos – digo arremedar porque o faço de maneira meio caricata e morro de inveja dos bons imitadores – comecei meu assobio trinado. Nisso, vinha um pedinte logo atrás, me puxou pelo cinto e me cobrou:
– Me dá um dinheiro, cara.
Olhou para ele de cara fechada e o enfrentou:
– Não tenho dinheiro não rapaz! Cê não tá vendo que sou passarinho?.
Quando conta essa história real, sua mulher completa com muito bom humor:
– Aí o rapaz ficou zangado, bateu asas e foi embora”.
Os pássaros estão bem destacados num capítulo só sobre eles.
Lembrou que um dos mais perfeitos processos de comunicação está na vocalização dos pássaros: em frases breves e sílabas precisas, eles anunciam, em convivência solidária, onde estão os alimentos, reagem às tentativas de intrusos em conquistar sua companheira, marcando bravamente seu território; reúne seus filhotes, quando dispersos; dá sinais sobre mudanças climáticas e se fazem entender em todas as suas necessidades para a vida silvestre ou urbana, num processo adaptativo de brutal e repentina antropização dos ambientes de agora. Não é por aí, mestre Altair?”, afirmou, para concluir:
“Quero demorar por aqui. Demorar muito mesmo. Mas quando tiver de voar, quero pousar na mesma árvore onde está pousado o poeta gaúcho Mário Quintana e dizer aos predadores: vocês passarão, eu passarinho”.
Sistema biogeográfico
Ao se identificar como integrante da Escola de Antropologia que seguia a linha lineana, Altair Sales explicou que essas escolas formam profissionais que possam entender os problemas da nova humanidade, sem qualquer tipo de preconceito, de forma natural, como intolerância à lactose, hipertricosis vera, e outras patologias associadas com maior incidência a grupos humanos especiais, classificados como raças, por Linneu. “Nada mais são que uma categoria taxonômica que pertence à espécie, no nosso caso, do homo sapiens sapiens”. A escola com essa orientação teórica visa orientar programas sociais específicos e busca compreender as origens biológicas da humanidade, os troncos linguísticos, as ideofacturas etc.
Para ele, a antropologia lineana parte do princípio global de que ontem o universo era um pouquinho menor e um pouquinho mais quente que atualmente. Ela considera que compreender o comportamento do espaço, tempo, matéria, energia, desde o Big Bang até os dias atuais “é um dos maiores trunfos do pensamento humano”.
“Se procuramos uma explicação completa para os eventos, desde os momentos mais primitivos até os momentos atuais, devemos encontrar um modo de tornar as quatro forças conhecidas da natureza, a gravidade, o eletromagnetismo e as forças nucleares fracas e fortes, capazes de falarem uma com as outras”. “Unificar-se e transformar-se numa única metaforça”, sublinhou Altair. “Devemos também encontrar um modo de conciliar dois ramos atualmente incompatíveis da física, a mecânica quântica (ciência do pequeno) e a relatividade geral (ciência do grande)”, esclareceu.
“Por isso procurei, sempre, ser coerente com estes princípios e foi baseado neles que, para estudar o cerrado, criei o conceito de sistema biogeográfico, que foi, de forma mais sistemática, exposto pela primeira vez na Organização dos Estados Americanos (OEA), em Washington, durante um evento mundial de biogeografia”, anotou.
Homem cerratense
Altair sentia que isso não era o bastante. “Faltava algo que me deixava em falso e eu não conseguia, por mais que tentasse, entender certos comportamentos do homem cerratense”, afirmou. Logo vinha a indagação: Por que os autênticos cerratenses são humildes, acanhados, honestos, cooperativos e corretos? Alinhavava que, ao mesmo tempo, eles eram altivos e seguros de suas sapiências. “Essa era minha dúvida, para a qual não encontrava respostas”.
Até que certo dia assistiu a um programa do então distante apresentador Hamilton Carneiro, no qual ele dialogava com o escritor Carmo Bernardes. A partir de então, sempre que podia, acompanhava os dois, na busca de respostas. Com o tempo, “e a aproximação de amigos comuns, como Binômino da Costa Lima, o saudoso sábio Meco, fomos nos tornando amigos, aquele tipo desarmado com o qual gostamos de prosear”. E assim, “a vida, com suas encruzilhadas, nos aproximou”. Ele passou a gravar seus programas na vila cenográfica do Memorial do Cerrado, instituição criada por Altair na antiga Universidade Católica de Goiás.
Carmo Bernardes faleceu. “Por incrível que pareça, no dia do seu sepultamento, perto de um pé de ipê amarelo, enquanto o enterro prosseguia, a dupla André e Andrade começou a cantar a música “Flor do Ipê”. Então comecei a viajar com a música, senti a humildade e a altivez das flores amarelas caindo, ao mesmo tempo em que serviam de alimento para outros animais”, lembrou.
Enquanto estavam todas caídas – assinalou – a planta permanecia altiva, com suas vagens de tabebuias prenhas de sementes, para explodirem em novas vidas. “Aí eu pude perceber que a humildade, sabedoria e altivez andam sempre de mãos dadas. Assim, descobri a alma do homem cerratense”, frisou.
A alma do homem do cerrado “parece que se espelha na simplicidade da própria existência, dos elementos rudes do cerrado, depois de milhões de anos de adaptação evolutiva, na simbiose entre as plantas tortas, no seu solo oligotrófico, mas que nos mostra, como a página de um livro, toda a autenticidade de uma vida que soube aprender com o tempo”. “Por isso, sou muito grato e falo com orgulho: Obrigado Hamilton, você foi o responsável por acrescentar esse tijolo fundamental no meu conhecimento”, completou.

