Luiz Carlos Bordoni
Há derrotas eleitorais que engrandecem um político. E há as que, pela maneira como são recebidas, acabam diminuindo ainda mais quem perdeu. A primeira pesquisa Quaest depois da eleição presidencial de 2026 sugere que Flávio Bolsonaro escolheu um caminho politicamente arriscado: transformar o inconformismo em estratégia e a contestação do resultado eleitoral em instrumento de sobrevivência política.
Os números são eloquentes. Para 62% dos brasileiros, o senador errou ao deixar o país e seguir para os Estados Unidos. Outros 60% consideram que ele se comportou mal depois da derrota. E 59% desaprovam sua decisão de questionar o resultado das urnas.
Mais grave para sua imagem: 56% dos entrevistados acreditam que a viagem teve como objetivo fugir da Justiça, enquanto 35% entendem que ele buscou proteção contra uma suposta perseguição política.
É indispensável fazer uma distinção: a pesquisa registra percepções da população, não estabelece culpa nem comprova intenção criminosa. Mas, na política, a percepção pública é um patrimônio valioso e Flávio parece estar consumindo o seu.
O erro de confundir eleitores com seguidores
Flávio Bolsonaro recebeu milhões de votos. Representa uma parcela expressiva da sociedade brasileira, que merece respeito e representação política. Seus eleitores não podem ser tratados como inimigos da democracia simplesmente porque escolheram outro candidato.
O problema começa quando uma liderança confunde o apoio recebido com autorização para deslegitimar as instituições sempre que o resultado lhe é desfavorável. A democracia não exige que o derrotado concorde com o vencedor. Exige que reconheça as regras do jogo e utilize os instrumentos legais para questionar eventuais irregularidades, apresentando provas.
A pesquisa mostra que 61% dos brasileiros consideram que a eleição foi limpa e justa. Outros 30% acreditam que houve fraude. A persistência dessa desconfiança, mesmo sem comprovação de fraude, constitui um sinal preocupante para a saúde institucional do país. Não se trata apenas de uma divergência eleitoral. Trata-se da confiança nas próprias regras que permitem à sociedade escolher seus governantes.
A direita diante de uma encruzilhada
Talvez a informação politicamente mais importante da pesquisa esteja na divisão entre os conservadores que não se identificam como bolsonaristas. Nesse segmento, 46% consideram correta a viagem de Flávio aos Estados Unidos, enquanto 45% a reprovam. É um empate praticamente absoluto.
Entre os bolsonaristas, 90% aprovam sua decisão. O contraste revela que Flávio mantém forte apoio entre os seguidores mais fiéis, mas encontra resistência quando precisa conquistar um eleitorado conservador mais amplo.
Esse é o dilema da direita brasileira. Continuará subordinada à liderança de uma família, às suas disputas e aos seus ressentimentos ou construirá um projeto político capaz de reunir conservadores, liberais e democratas em torno de propostas concretas para o país?
O Brasil precisa de uma direita moderna, democrática e responsável, assim como precisa de uma esquerda comprometida com as instituições e com a pluralidade. Oposição não é sinônimo de sabotagem. Fiscalizar o governo, denunciar irregularidades, combater desperdícios e apresentar alternativas são deveres legítimos e indispensáveis.
A democracia não sobrevive sem oposição. Mas também não prospera quando a oposição se alimenta permanentemente da desconfiança nas instituições.
Uma comparação desconfortável
Outro resultado chama a atenção. Em dezembro de 2022, depois da derrota de Jair Bolsonaro, 45% dos entrevistados avaliavam negativamente sua postura. Agora, a reprovação ao comportamento de Flávio chega a 60%. São quinze pontos percentuais de diferença.
A comparação não significa que os contextos sejam idênticos, mas indica que a reação do filho encontrou resistência ainda maior na opinião pública. O senador parece ter apostado na repetição da estratégia política do pai, sem considerar que o país pode estar cansado de viver eleições intermináveis.
Campanhas precisam terminar. Divergências permanecem, naturalmente, mas chega o momento em que vencedores e vencidos devem voltar suas atenções para os problemas reais da população.
O Brasil quer virar a página
Há outro dado revelador na pesquisa. Embora 81% dos entrevistados considerem que o país saiu dividido das eleições, 94% afirmam desejar que Lula faça um bom governo.
Esse resultado merece reflexão. Não significa que 94% aprovem o presidente ou concordem com suas ideias. Significa que a imensa maioria compreende, ao menos em princípio, que o fracasso de um governo prejudica a própria sociedade.
O trabalhador precisa de emprego. O empresário, de segurança jurídica. O agricultor, de condições para produzir. As famílias precisam de saúde, educação, segurança e renda. Nenhum desses problemas será resolvido com a repetição interminável das disputas eleitorais.
Lula, por sua vez, tem a obrigação de compreender que foi eleito para governar todos os brasileiros, inclusive os milhões que votaram em Flávio Bolsonaro. A vitória não lhe concede licença para revanchismos, perseguições ou exclusões. Governar exige grandeza. Fazer oposição também.
O verdadeiro julgamento
Flávio Bolsonaro tem direito de continuar na política, liderar seu grupo e construir uma oposição vigorosa. O que não pode é imaginar que a fidelidade de seus seguidores equivale à aprovação da sociedade inteira.
A pesquisa Quaest não decreta seu fim político. Seria precipitado afirmar isso, mas acende um sinal de alerta sobre os custos de suas escolhas depois da eleição. O Brasil já pagou um preço elevado pela intolerância, pela radicalização e pela transformação de adversários em inimigos.
A eleição terminou. O país continua e talvez esteja aí a maior lição deste levantamento: os brasileiros podem continuar divididos em suas preferências, mas uma parcela expressiva demonstra rejeitar atitudes que prolongam o conflito eleitoral.
Flávio Bolsonaro perdeu a Presidência nas urnas. Sua conduta posterior ameaça fazê-lo perder algo que não se recupera facilmente: a confiança pública. Porque, afinal, perder uma eleição faz parte da democracia. Não saber perder pode comprometer uma carreira política inteira.

