Luiz Carlos Bordoni (*)
Ary Barroso estaria chorando hoje. Não apenas pelas vidas perdidas e pelos prejuízos materiais que atingiram sua Ubá, mas pela dor silenciosa de ver o seu torrão natal quase submerso — e pela indiferença de uma memória curta que a mídia insiste em cultivar.
Ary nasceu em Ubá, Minas Gerais, em 1903. Viveu pouco tempo ali — ainda menino, seguiu com a família para o Rio de Janeiro —, mas nunca deixou de carregar Ubá na alma. O Brasil que ele compôs tinha cheiro de interior, tinha cor de montanha, tinha a grandeza simples das cidades que formam o caráter de um país.
Quando escreveu “Aquarela do Brasil”, ele não pintou apenas um samba-exaltação. Pintou uma identidade. Projetou o Brasil no mundo. A canção atravessou oceanos, foi parar em Hollywood, ganhou indicação ao Oscar e se transformou numa das músicas brasileiras mais executadas internacionalmente. Poucos artistas conseguiram tamanho feito.
Ary também eternizou “Na Baixa do Sapateiro”, mostrou o vigor do rádio nas décadas de 1930 e 1940, foi locutor, comentarista esportivo, jurado exigente, personalidade intensa. Amava o Brasil com paixão — às vezes com exagero, sempre com verdade.
E hoje, quando Ubá sofre com as águas, parece faltar essa memória cultural. Falta lembrar que ali nasceu um dos maiores compositores da história do país. Falta dizer que aquela cidade que luta contra enchentes é a mesma que deu ao mundo uma obra que ajudou a consolidar a imagem do Brasil moderno.
Talvez a imprensa não tenha feito a ligação por desconhecimento histórico. Talvez porque a pressa das redações já não permita o resgate simbólico. Mas é justamente nesses momentos que a cultura deve ser convocada — não como ornamento, mas como raiz.
Ary foi premiado no rádio, homenageado por entidades culturais, reconhecido internacionalmente. Mas o maior prêmio que recebeu foi ter transformado o Brasil em melodia. Ele fez do país uma canção.
Se estivesse vivo, certamente estaria mobilizando artistas, promovendo campanhas, usando sua voz potente para ajudar Ubá a se reerguer. Porque quem ama o torrão natal não esquece.
E nós? Também não deveríamos esquecer. Hoje, ao falar de Ubá, é preciso falar de Ary Barroso. Porque cidades não são apenas prédios e ruas — são memória, cultura e identidade. E, quando a água baixa, é isso que permanece.
(*)Luiz Carlos Bordoni é Jornalista
