Flávio Bolsonaro (PL) chegou ao segundo turno à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), enquanto seu partido conquistou a maior bancada da Câmara e deverá liderar também o Senado. O resultado recoloca o bolsonarismo no centro da disputa pelo poder e aproxima o Brasil de um movimento internacional em que forças de direita avançam explorando insegurança, insatisfação econômica e desgaste dos governos.
A diferença de 1,87 ponto percentual entre Flávio, com 47,03%, e Lula, com 45,16%, mantém a eleição presidencial aberta. Mas o significado político do domingo ultrapassa essa vantagem estreita. O bolsonarismo demonstrou capacidade de preservar eleitores, conquistar representação parlamentar e disputar novamente o Executivo, mesmo com Jair Bolsonaro afastado da competição eleitoral.
Mais do que um renascimento, o resultado indica a continuidade de um movimento que sobreviveu à derrota de 2022. A liderança passou do pai para o filho na candidatura presidencial, enquanto o PL ofereceu a estrutura partidária para transformar apoio político em cadeiras no Congresso. O sobrenome permaneceu como referência eleitoral, mas a força demonstrada nas urnas vai além de uma candidatura.
Com 121 deputados eleitos e uma projeção de 28 senadores, o PL terá instrumentos para influenciar o próximo governo, mesmo que Flávio perca o segundo turno. O bolsonarismo ampliou sua presença institucional e chega a uma posição em que pode disputar a condução da agenda legislativa, negociar alianças e pressionar o Executivo.
Esse avanço encontra correspondência em outros países, embora a expressão “maré de direita” reúna movimentos diferentes. Há conservadores tradicionais, nacionalistas, liberais radicais e lideranças de extrema direita. Eles compartilham adversários e parte do discurso, mas divergem sobre economia, comércio exterior e o papel do Estado.
Nos Estados Unidos, Donald Trump continua sendo a principal referência internacional desse campo. Seu retorno à Casa Branca reforçou a mensagem de que uma derrota eleitoral pode ser superada sem abandonar a identidade política que mobiliza os apoiadores. Para o bolsonarismo, essa trajetória oferece um exemplo de recuperação do poder por meio da manutenção de uma base fiel.
Na América Latina, o deslocamento à direita ganhou novos protagonistas. Javier Milei, na Argentina, representa a defesa de cortes de gastos e redução do Estado. No Chile, José Antonio Kast venceu a eleição presidencial de dezembro de 2025 com cerca de 58% dos votos. Segundo a Reuters, a preocupação com a criminalidade foi central na campanha chilena, que também deu destaque à imigração e ao controle das fronteiras.
A eleição de Keiko Fujimori no Peru e de Abelardo de la Espriella na Colômbia ampliou esse quadro regional. A Reuters descreveu essas vitórias como parte de uma aproximação de governos latino-americanos com Washington e com políticas mais duras de combate ao crime.
A segurança pública aparece como um dos principais pontos de encontro dessas direitas. O medo da violência favorece candidatos que prometem autoridade, punição e respostas rápidas. A força desse discurso aumenta quando o eleitor considera que as instituições existentes não conseguem protegê-lo.
O custo de vida é outro elemento decisivo. Na cobertura da eleição brasileira, a Reuters destacou o peso da insatisfação econômica, da corrupção e da criminalidade. A melhora de indicadores nacionais nem sempre se converte em aprovação política quando as famílias continuam pressionadas por dívidas, preços e insegurança.
A hipótese que ajuda a explicar esse movimento é a distância entre os resultados apresentados pelos governos e a experiência cotidiana dos eleitores. Quem sente que perdeu renda, proteção ou perspectiva de futuro pode procurar uma candidatura que prometa romper com a situação existente, mesmo sem aderir a todo o seu programa.
Na Europa, o avanço assume formas próprias. Giorgia Meloni governa a Itália; na França, o Reagrupamento Nacional ocupa posição central na disputa presidencial; na Alemanha, a Alternativa para a Alemanha, AfD, procura ampliar seu espaço e vencer a resistência dos partidos que rejeitam alianças com a legenda.
Esses casos também mostram os limites da comparação. A imigração tem um peso na política europeia que não encontra equivalente direto no Brasil. Aqui, o antipetismo, a segurança pública, o conservadorismo religioso e o conflito com o Supremo Tribunal Federal ocupam lugar mais importante na identidade bolsonarista.
Há divergências econômicas igualmente relevantes. O protecionismo de Trump não se confunde com a orientação liberal de Milei. A convergência entre essas lideranças está mais na linguagem política, na identificação de adversários e na promessa de recuperar autoridade do que num programa econômico comum.
Também seria precipitado interpretar todas as vitórias como uma conversão duradoura das sociedades à direita. Uma análise publicada pelo Financial Times sobre a América Latina apontou que parte desse avanço expressa rejeição aos governantes e frustração com serviços públicos e segurança. Mandatos conquistados nessas condições podem perder apoio quando as promessas encontram os custos e os limites de governar.
No Brasil, essa distinção será testada no segundo turno. Flávio precisa demonstrar que a disposição de mudança pode se transformar em confiança na sua capacidade de governar. Lula terá de responder às insatisfações que impediram o governo de terminar a primeira etapa à frente.
A eleição brasileira ainda não entregou a Presidência ao bolsonarismo. Entregou, porém, uma demonstração de sua resistência e de sua capacidade de expansão. O movimento volta a disputar o Executivo com vantagem inicial e com uma estrutura parlamentar fortalecida — uma combinação que dá ao resultado brasileiro importância para além das fronteiras do país.


