O jornal Folha de S.Paulo publica hoje (1º/06) uma reportagem em que aborda as contradições envolvendo integrantes da família Bolsonaro após a defesa da classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos. O texto relembra episódios em que o ex-presidente Jair Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro mantiveram relações políticas ou proximidade com pessoas investigadas ou acusadas de ligação com milícias e organizações criminosas no Rio de Janeiro.
Segundo a reportagem, Flávio Bolsonaro comemorou publicamente a decisão do governo dos Estados Unidos de classificar PCC e CV como grupos terroristas após uma visita ao presidente Donald Trump. A medida passou a ser explorada politicamente pelo grupo bolsonarista como um tema de campanha eleitoral ligado ao combate ao crime organizado.
A Folha destaca, porém, que integrantes da família Bolsonaro tiveram, ao longo dos anos, vínculos com figuras investigadas por atuação em milícias. Um dos casos citados é o do ex-policial militar Adriano da Nóbrega, apontado pelo Ministério Público como integrante da milícia de Rio das Pedras e do grupo de extermínio Escritório do Crime. Em 2005, Jair e Flávio Bolsonaro visitaram Adriano na prisão e entregaram a ele a Medalha Tiradentes, honraria da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro concedida a pedido de Flávio, então deputado estadual. Adriano morreu em 2020 durante uma operação policial na Bahia após permanecer foragido por mais de um ano.
A reportagem também relembra o caso das chamadas “rachadinhas” no gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj. A mãe e a esposa de Adriano da Nóbrega trabalharam no gabinete do então deputado estadual e, segundo investigações do Ministério Público do Rio, fariam parte do esquema de devolução de salários de assessores parlamentares. As investigações acabaram anuladas posteriormente pelo STF e pelo STJ, e Flávio sempre negou qualquer irregularidade.
Outro ponto abordado é o histórico de declarações de Jair e Flávio Bolsonaro minimizando ou relativizando a atuação de milícias no Rio de Janeiro. Jair Bolsonaro chegou a afirmar, em 2018, que regiões controladas por milicianos apresentavam menos violência. Já Flávio declarou que moradores de áreas dominadas por milícias frequentemente demonstravam satisfação com a presença desses grupos.
A matéria menciona ainda episódios envolvendo pessoas próximas ao grupo político bolsonarista investigadas por crimes. Entre eles estão policiais suspeitos de integrar quadrilhas de extorsão que participaram da segurança da campanha de Flávio Bolsonaro ao Senado em 2018. Também é citado o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio, Rodrigo Bacellar, aliado recente da família Bolsonaro e investigado por suspeita de vazamento de informações ao Comando Vermelho.
A Folha também relata a proximidade de Flávio Bolsonaro com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, acusado de crimes financeiros envolvendo o Banco Master, como organização criminosa, corrupção e lavagem de dinheiro. Segundo a reportagem, o senador admitiu encontros pessoais com Vorcaro e confirmou negociações envolvendo financiamento de um filme.
Além da análise política, o jornal mostra como a decisão dos Estados Unidos repercutiu nas redes sociais e fortaleceu o discurso bolsonarista na segurança pública. Levantamento citado pela reportagem indica que a classificação do PCC e do Comando Vermelho como terroristas passou a dominar debates em grupos de WhatsApp e Telegram ligados à direita, sendo utilizada como crítica ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A reportagem ressalta que a assessoria de Flávio Bolsonaro negou qualquer ligação da família com facções criminosas e afirmou que não existe processo ou boletim de ocorrência que comprove envolvimento do senador com organizações ilegais.


