Brasília, 08/03/2026

CPI, sigilos e coerência

Luiz Carlos Bordoni (*)

Nunca acreditei muito em CPIs ou CPMIs. Raramente terminam com a clareza moral que prometem. Muitas se perdem no palanque, no espetáculo, na retórica inflamada. Quando não acabam em pizza, acabam em relatórios ignorados. Ainda assim, são instrumentos constitucionais de fiscalização. E, quando acionados, precisam ser respeitados.

O fato de hoje expôs mais uma vez nossas contradições. Parlamentares governistas e oposicionistas protagonizaram embates duros após a aprovação do requerimento que determina a quebra de sigilo bancário e fiscal de Fábio Luiz Lula da Silva, o Lulinha.

Há temor de quê? O próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva já declarou publicamente que, se alguém deve explicações, que as dê. A fala é correta. Transparência não deveria constranger inocentes.

O que inquieta é a tentativa recorrente de barrar investigações antes mesmo que produzam qualquer conclusão. Em um país exausto de escândalos — de todos os lados — o mínimo que se espera é serenidade institucional. Quem não deve, não teme. A máxima romana continua atual: à mulher de César não basta ser honesta, deve também parecer honesta. O mesmo vale para homens públicos e seus entornos familiares.

Blindagens políticas fragilizam discursos morais. Se há convicção de lisura, que se investigue. O contrário alimenta suspeitas, fortalece narrativas radicais e amplia a desconfiança social.

CPI não pode ser instrumento de vingança. Mas também não pode ser tratada como ameaça ilegítima. Democracia madura não teme apuração — teme, isso sim, a falta de postura ética diante dela.

Luiz Carlos Bordoni é Jornalista

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