Os Estados Unidos anunciaram um alívio temporário nas sanções ao petróleo da Rússia em meio à crise no Oriente Médio. A medida busca conter a disparada dos preços da energia após a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. Mas a decisão gerou críticas na Europa, que teme enfraquecimento da pressão sobre Moscou.
“Continuaremos, e devemos continuar, aumentando a pressão sobre Moscou. Quero deixar isso bem claro. Aliviar as sanções agora, seja qual for o motivo, é errado. Acreditamos que essa é a linha de ação errada. Nosso apoio à Ucrânia continuará. Não permitiremos que a guerra com o Irã nos desvie ou nos distraia disso.
Já o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, declarou que a flexibilização temporária das restrições à parte do petróleo russo representa uma tentativa de estabilizar os mercados globais de energia, destacando que, no momento atual, considerando a situação, os interesses entre EUA e Rússia “realmente estão alinhados”. No entanto, ele manifestou cautela, lembrando que Washington não eliminou as restrições contra Moscou, e que o alívio às sanções anunciado na quinta-feira (12) é temporário.
A inédita movimentação de alívio às sanções acontece no contexto do conflito no Irã, desencadeado pelos EUA e Israel, que causou uma instabilidade no mercado, com altas recordes nos preços do petróleo na última semana.
Nesse cenário de tensão no Oriente Médio e de volatilidade no mercado internacional de energia, a Rússia encontra uma oportunidade econômica. Com a redução da oferta de petróleo da região e a disputa entre grandes importadores por novos fornecedores, o petróleo russo ganha espaço e passa a ser ainda mais valorizado no mercado global.
Em entrevista ao Brasil de Fato, o analista-chefe do Fundo Nacional de Segurança Energética da Rússia, Igor Ushkov, destaca que este cenário de alta — mas com estabilidade — nos preços do petróleo é vantajoso para a Rússia, pois o país consegue lucrar de uma maneira contínua.
“Para a Rússia, a situação atual é vantajosa, especialmente com preços abaixo de US$ 100 por barril. Nesse patamar, o país lucra vendendo petróleo mais caro sem que haja uma queda drástica no consumo mundial. É preferível que não existam parâmetros críticos ou preços excessivamente altos, pois a recuperação posterior do mercado seria lenta”, argumenta.
Segundo o analista, a Rússia obtém porque o petróleo russo tornou-se muito requisitado, considerando que Índia e China passaram a “competir entre si para comprar da Rússia, visando substituir os suprimentos do Oriente Médio”.
“Para a Índia, fornecedores como Iraque, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos ocupavam as principais posições, mas esse petróleo sumiu do mercado. A Índia busca suprir essa falta com o produto russo, que inicialmente podia ser comprado com desconto, mas agora já é comercializado com um prêmio em relação ao Brent nos portos de destino”, afirma.
De acordo com Ushkov, o mesmo ocorre com a China, pois a Arábia Saudita era o segundo maior fornecedor para os chineses, que também compravam petróleo iraniano e de outros países do Oriente Médio.
“Agora precisam substituir essas fontes e competem pelo petróleo russo. O desconto que existia no início do ano, chegando a cerca de US$ 30 por barril, foi neutralizado e está diminuindo. Permanecem os custos elevados de transporte, pois as empresas russas continuam sob sanções”, completa.
Já o economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada da Academia Russa de Economia Nacional, Andrey Zubarev, em entrevista ao Brasil de Fato, explica a dinâmica dos descontos que a Rússia realiza para exportar o seu petróleo para países como Índia e China.
Segundo ele, com o aumento dos preços, os descontos acabam sendo neutralizados e Moscou acaba vendendo petróleo aos seus parceiros a um patamar semelhante ao preço oficial do petróleo antes da crise no Oriente Médio. Segundo ele, a receita russa aumentou significativamente, com lucros adicionais estimados em US$ 1,5 bilhão apenas em março
“A Rússia faz desconto sobre este petróleo que exporta pelo Oceano Pacífico para Índia e China, pois estes países entendem que muitos países não compram o petróleo russo, então negociam descontos com Moscou. E em alguns portos, os descontos chegam a 25-30 dólares por barril, o que é bem significativo, se pensarmos que em uma alta de 100 dólares por barril, a Rússia vende a seus parceiros por cerca de 70 dólares. É mais ou menos o preço anterior do barril do petróleo, então o preço com desconto pela Rússia alcançou a alta dos preços, o que é vantajoso para a Rússia”, afirma.
Além disso, Moscou também busca reforçar sua posição como fornecedor estratégico de energia. Em meio às disputas geopolíticas e às tentativas ocidentais de reduzir a dependência do petróleo e do gás russos, o presidente Vladimir Putin voltou a destacar que a Rússia pretende manter sua presença no fornecimento energético para países considerados parceiros confiáveis.
“Gostaria de enfatizar que a Rússia é uma fornecedora confiável de recursos energéticos. Sempre foi assim. Certamente continuaremos a fornecer petróleo e gás aos países que são as contrapartes mais confiáveis. Refiro-me não apenas aos nossos parceiros na região da Ásia-Pacífico, mas também aos países do Leste Europeu, como a Eslováquia e a Hungria”, declarou o líder russo.
Neste sentido, o economista Andrey Zubarev aponta que que a Índia aumentou substancialmente as compras de petróleo russo recentemente, após uma autorização tácita ou forçada pela necessidade, já que o conflito no Oriente Médio limitou outras fontes,. Ele acredita que não houve negociações complexas por parte da Rússia, mas, sim, uma necessidade pragmática dos países compradores (Índia e China) que precisam de energia para suas economias e aquecimento.
Enquanto isso, a Europa segue enfrentando dificuldades para garantir fontes alternativas capazes de substituir plenamente o gás russo. Mesmo assim, o continente mantém a estratégia de pressionar Moscou e de apoiar a Ucrânia.
Para o o analista-chefe do Fundo Nacional de Segurança Energética da Rússia, Igor Ushkov, essa posição acaba criando um paradoxo econômico, já que ações ligadas à própria guerra podem reduzir ainda mais a oferta de energia disponível para os europeus.
“Os europeus, embora sofram economicamente, enfrentam uma situação agravada pela própria Ucrânia, que ataca, por exemplo, navios de gás com GNL russo e tenta atingir gasodutos que vão da Rússia para a Turquia e, posteriormente, para a Europa”, explica.
Segundo Ushkov, esses gasodutos, conhecidos como Blue Stream e TurkStream, fazem parte da estratégia russa de redirecionar exportações de gás para rotas que contornem a Ucrânia e mantenham o fornecimento ao sul da Europa via Turquia. Na avaliação do especialista, qualquer tentativa de interromper esse corredor energético afeta diretamente o equilíbrio do mercado europeu, já pressionado pela redução do gás russo por outras rotas desde o início da guerra.
Ele destaca que, no total, os fluxos pelos gasodutos Blue Stream e TurkStream transportam cerca de 40 bilhões de metros cúbicos. Para comparação, a Europa já sofre porque o GNL do Catar não está saindo, o que representa cerca de 100 bilhões de metros cúbicos. Para o analista, retirar outros 40 bilhões do mercado mundial causará ainda mais déficit e aumento de preços na Europa.
“Apesar de a Ucrânia agir abertamente contra os interesses econômicos europeus, a União Europeia continua ajudando, pois considera que conter a Rússia é uma tarefa estratégica da Europa. Na realidade, alguns políticos europeus específicos apostaram na construção de suas imagens como combatentes contra a Rússia, acreditando que assim ganham pontos políticos. No entanto, vemos que não é bem assim: quanto pior fica a situação da economia europeia, inclusive devido ao rompimento das relações com a Rússia, mais populares se tornam os partidos de oposição, como o Alternativa para a Alemanha (AfD). Portanto, a Europa entrou em um impasse e não deseja mudar sua posição política em relação à Rússia. Pelo contrário, para eles é vantajoso encerrar o conflito iraniano para que a atenção volte novamente para a Ucrânia”, completa. (Brasil de Fato)
