Brasília, 13/06/2026

“Dark Horse”: a facada, a perseguição e o mártir

Luiz Carlos Bordoni (*)

O caso envolvendo Eduardo Bolsonaro e o filme Dark Horse deixou de ser apenas uma discussão sobre cinema político. O que emerge agora é uma tentativa sofisticada e milionária de reconstrução simbólica da imagem de Jair Bolsonaro.

O detalhe mais relevante é que o próprio Eduardo admitiu ter assinado contrato com poderes de gestão financeira sobre o projeto, confirmando informações reveladas pelo site Intercept Brasil. A admissão desmonta a estratégia inicial de minimizar seu envolvimento.

Mas o conteúdo do roteiro talvez seja ainda mais explosivo do que a discussão financeira.

Segundo relatos já divulgados, Dark Horse praticamente abandona o formato tradicional de biografia para concentrar-se na facada sofrida por Bolsonaro durante a campanha de 2018. Da página 31 até o final, o filme gira em torno da ideia do candidato perseguido, fragilizado fisicamente e vítima de uma conspiração política.

A narrativa tenta consolidar Bolsonaro como mártir histórico.

O roteiro apresenta uma América Latina tomada pelo socialismo, enquanto Bolsonaro aparece como alguém combatido por forças políticas, midiáticas e judiciais. O ex-presidente é retratado como um homem cercado, perseguido e ameaçado.

A facada transforma-se no eixo emocional da obra. As cenas hospitalares ocupam papel central. Curiosamente, o roteiro atribui à “imprensa da esquerda” o vazamento das imagens do então candidato internado. Politicamente, porém, é difícil ignorar que aquelas imagens acabaram sendo incorporadas à própria estratégia eleitoral de 2018, ajudando a construir a figura do homem vulnerável combatendo o sistema.

O filme também promove uma espécie de higienização da trajetória política de Bolsonaro.

Não aparecem episódios considerados tóxicos para sua imagem moderada: o voto no impeachment de Dilma Rousseff dedicado ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido oficialmente pela Justiça como torturador; nem a entrevista em que Bolsonaro afirmou que o erro da ditadura teria sido “torturar e não matar”.

O silêncio sobre essas declarações não parece acidental. Ao mesmo tempo, o roteiro tenta humanizar Bolsonaro através de personagens cuidadosamente desenhados. Surge, por exemplo, um enfermeiro negro e gay que “descobre quem Bolsonaro realmente é” e decide apoiá-lo politicamente. Há ainda a jornalista inicialmente crítica que, ao final, acaba convertida à visão de masculinidade e liderança defendida pelo personagem central.

É uma construção cinematográfica calculada. O problema político é que o filme surge num momento delicado para o bolsonarismo. O grupo enfrenta dificuldades jurídicas, desgaste institucional e divisões internas sobre o futuro da direita em 2026.

Nesse contexto, Dark Horse parece menos um filme e mais uma peça de reconstrução narrativa. O custo estimado de US$24 milhões, cerca de R$134 milhões, reforça essa percepção. Trata-se de uma produção de padrão financeiro elevado, embora os críticos descrevam o projeto como um “filme B”, em termos de linguagem e roteiro.

No fundo, o objetivo parece claro: substituir o Bolsonaro agressivo, polêmico e radicalizado pelo Bolsonaro vítima, sobrevivente e perseguido. A dúvida é se o público ainda compra essa versão.

(*) Luiz Carlos Bordoni é Jornalista

Tags

Gostou? Compartilhe!