Luiz Carlos Bordoni
Rosários nas mãos, milhares de pessoas nas ruas e o medo do comunismo espalhado pelo país. Era março de 1964. Poucos dias depois do Comício da Central do Brasil, no qual João Goulart defendeu suas reformas de base, uma multidão participou, em São Paulo, da Marcha da Família com Deus pela Liberdade.
O país estava profundamente dividido. Empresários, setores da classe média, grupos religiosos, políticos, militares e organizações anticomunistas se mobilizavam contra Jango. Não se pode reduzir aquela multidão a marionetes. Havia brasileiros que efetivamente acreditavam estar defendendo o país de uma ameaça comunista.
Mas, por trás daquele cenário, existia também uma disputa internacional muito maior. Era a Guerra Fria e Washington não assistia aos acontecimentos brasileiros de braços cruzados.
Hoje podemos afirmar isso sem recorrer a suposições. Documentos oficiais do próprio governo norte-americano mostram que, no dia 31 de março de 1964, os Estados Unidos prepararam uma operação para eventual apoio às forças contrárias a Goulart. Era a Operação Brother Sam.
Navios foram movimentados. O combustível foi preparado. Havia previsão de munições, equipamentos e apoio aéreo. Um documento do Departamento de Estado registra expressamente que as providências destinavam-se a deixar Washington em condições de prestar assistência às forças anti-Goulart, caso fosse tomada essa decisão. A resistência esperada não aconteceu e o apoio militar direto acabou não sendo necessário, mas a operação existiu.
Outro documento daquele período é igualmente revelador: autoridades norte-americanas discutiam a conveniência de permanecer publicamente em segundo plano para não prejudicar as forças brasileiras que lhes eram favoráveis.
A história ajuda a compreender por que devemos olhar com atenção para qualquer indício de interferência estrangeira nos assuntos internos do país.
Chegamos a 2026. O Brasil não vive uma repetição de 1964. Temos eleições periódicas, Constituição, instituições funcionando, imprensa plural e uma sociedade muito diferente daquela existente há seis décadas.
Entretanto, surgiu novamente a discussão sobre a atuação dos Estados Unidos na política brasileira. O presidente Lula acusa Donald Trump de tentar interferir na eleição e beneficiar seu adversário, Flávio Bolsonaro.
A acusação não é prova e o jornalismo responsável deve fazer essa distinção. Mas surgiu agora um elemento que não veio do governo brasileiro. Trinta e um parlamentares democratas dos próprios Estados Unidos enviaram uma carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, manifestando preocupação com aquilo que classificam como uma campanha de interferência e desestabilização no Brasil.
Eles mencionam pressões diplomáticas e econômicas e questionam ações adotadas pelo governo Trump às vésperas da eleição brasileira. Pedem inclusive que Washington se comprometa a respeitar o processo eleitoral do Brasil. É um fato politicamente relevante, embora também seja necessário registrar que os signatários pertencem à oposição ao governo Trump.
Portanto, novamente: atenção sem precipitação. Não se pode afirmar hoje que estamos diante de uma nova versão de 1964. Seria uma comparação histórica simplista, mas também seria ingenuidade imaginar que as grandes potências deixaram de tentar exercer influência sobre outros países.
Mudaram os instrumentos. Em 1964 havia navios, aviões, combustível e munição preparados. Em 2026, uma potência dispõe de tarifas, sanções, diplomacia, tecnologia, redes sociais, circulação internacional de informações e enorme capacidade econômica. A interferência contemporânea, quando ocorre, pode dispensar tanques e soldados.
É justamente aí que a história de 1964 conversa com o presente. Não para dizer que tudo está se repetindo, mas para lembrar que soberania exige vigilância.
Os Estados Unidos defendem os interesses dos Estados Unidos. A China defende os interesses da China. As grandes potências sempre fizeram isso. O problema começa quando o interesse legítimo de um país ultrapassa suas fronteiras e tenta interferir na decisão soberana de outro povo.
Quem será o próximo presidente do Brasil? A resposta deve sair das urnas brasileiras. Pode ser Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro escolhido pelos eleitores. Não cabe a Washington decidir. Nem a Pequim, Moscou, Buenos Aires, Caracas ou qualquer outra capital. O voto pertence ao cidadão brasileiro.
Talvez essa seja a maior lição deixada por 1964. A amizade entre países é saudável. Cooperação é necessária. Relações comerciais são indispensáveis. Subordinação é outra coisa. O Brasil pode ter parceiros. Dono, não.


