Luiz Carlos Bordoni (*)
O encontro nacional do Partido dos Trabalhadores, realizado em Brasília, trouxe à tona uma contradição que não pode ser ignorada. Enquanto lideranças e documentos do partido defendem o fortalecimento da democracia no Brasil, uma faixa exibida no evento pedindo a volta de Nicolás Maduro expõe um ruído político de difícil explicação.
Não se trata de um detalhe irrelevante ou de um excesso isolado de militância. A imagem carrega simbolismo. E, na política, símbolos importam e muito. Eles revelam, muitas vezes, aquilo que o discurso formal tenta suavizar.
A defesa da democracia pressupõe coerência. Não é possível sustentar, com credibilidade, a valorização das instituições, do voto popular e da alternância de poder em território nacional, enquanto se relativizam práticas autoritárias em outros países. A democracia não admite versões adaptadas conforme a conveniência ideológica.
Ao defender, ainda que indiretamente, a permanência ou o retorno de lideranças contestadas internacionalmente, o partido se afasta de um princípio básico: o direito dos povos de decidirem livremente seus próprios destinos. O correto, em qualquer cenário, seria defender eleições livres, transparentes e reconhecidas, não nomes ou projetos específicos.
É preciso dizer também que esse comportamento não é exclusivo de um espectro político. Setores da direita brasileira, em diferentes momentos, também demonstraram desconforto com limites democráticos. O problema, portanto, não está na ideologia em si, mas na tentação recorrente de concentração de poder, seja ela de esquerda ou de direita.
Nesse contexto, o episódio não contribui para o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Lula construiu sua trajetória política com base no diálogo e na moderação relativa, muitas vezes se posicionando de forma mais pragmática do que setores de sua própria base. Sua força política sempre esteve, justamente, na capacidade de transitar entre diferentes correntes.
No entanto, manifestações como essa alimentam narrativas adversárias, ampliam a desconfiança e colocam em xeque a consistência do discurso democrático.
Em tempos de polarização acentuada, o Brasil não precisa de democracia de ocasião. Precisa de compromisso real, que valha para dentro e para fora, para aliados e adversários, porque, no fim das contas, democracia não é bandeira. É prática.
(*) Luiz Carlos Bordoni é Jornalista

